sábado, 1 de fevereiro de 2014

Ex voto - Adélia Prado

"O que não parece vivo, aduba. O que parece estático, espera." (Adélia Prado)

Profundo, abissal, divino e profano... Sim, grande mestre Drummond, Adélia Prado é fogo de Deus em Divinópolis! E como dói...

Ex voto

Na tarde clara de um domingo quente
surpreendi-me,
intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro,
desejo de raspar a cabeça e me pôr nua
no centro da minha vida e uivar
até me secarem os ossos:
que queres que eu faça, Deus?
Quando parei de chorar
o homem que me aguardava disse-me:
“você é muito sensível, por isso tem falta de ar”.
Chorei de novo porque era verdade
e era também mentira,
sendo só meio consolo.
Respira fundo, insistiu, joga água fria no rosto,
vamos dar uma volta, é psicológico.
Que ex-voto levo à Aparecida,
se não tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista,
torço para que se desiluda
e volte a rezar comigo as orações católicas.
Eu nunca ia ser budista,
por medo de não sofrer, por medo de ficar zen.
Existe santo alegre ou são os biógrafos
que os põem assim felizes como bobos?
Minas tem coisas terríveis,
a Serra da Piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha
de tão imediata beleza,
edificações geridas pelo inferno,
pelo descriador do mundo.
O menino não consegue mais,
vai morrer, sem forças para sugar
a corda de carne preta do que seria um seio,
agora às moscas.
Meu coração é bom
mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia,
por que tanto recebo,
quando seria justo mandarem-me à solitária?
Palavras não, eu disse, só aceito chorar.
Por que então limpei os olhos
quando avistei roseiras
e mais o que não queria,
de jeito nenhum queria àquela hora,
o poema,
meu ex-voto,
não a forma do que é doente,
mas do que é são em mim
e rejeito e rejeito,
premida pela mesma força
do que trabalha contra a beleza das rochas?
Me imploram amor Deus e o mundo,
sou pois mais rica que os dois,
só eu posso dizer à pedra:
és bela até à aflição;
o mesmo que dizer a Ele:
sois belo, belo, sois belo!
Quase entendo a razão de minha falta de ar.
Ao escolher palavras com que narrar minha
angústia,
eu já respiro melhor.
A uns Deus os quer doentes,
a outros quer escrevendo.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

July e Dionísio

Comptine d'un autre été : L'Après-midi by Yann Tiersen on Grooveshark

Juju
É noite. Olho a lua alta e me agarro na fé de que o sol virá trazer o dia. A cama desarrumada ainda guarda as tuas marcas, posso até sentir teu cheiro. O silêncio da tua ausência agora me machuca, me corta a sangue frio. Fumo. E não ouço as tuas censuras. É estranho, mas até a falta delas me dói agora. Passeio pela casa, subo e desço as escadas, vou da sala à cozinha e de lá ao quarto. Tudo vazio. Não há reclamações, protestos ou xingamentos. Tampouco há risos. Entretanto, sinto um alívio trazido de saber você bem. E embora eu sofra, não tenho motivos para maldizer a vida. A dor purifica, traz a remissão das faltas, ensina. Tudo é belo, pois é trágico. É belo porque é lágrima e riso – é movimento. E agora é tudo teu: a montanha, os sinos, os gatos a espreitar o quintal de cima dos telhados numa preguiça boa, os pássaros cantando à inocência, a mangueira florida, os transeuntes incógnitos, os cães, o céu, as nuvens. A vida é boa, a despeito do que dizem os vencidos. Estes só o são por ainda não poder enxergar o quadro todo, pois a beleza de um mosaico só pode ser vista a certa distância, do alto. Aos poucos, vejo mais, sinto mais. Penso em você, e você ainda me dói. Mas lembra: a dor purifica, limpa a alma, esvazia – a árvore se desfolha para fazer brotar de novo a flor. A vida é boa e já até esboço um sorriso. Você está bem. A flor desabrochou.
 
Dio
Nunca te vi triste. Acho que você não conhece a tristeza. Está sempre sorrindo mesmo com as durezas desse mundo ainda tão cruel. Me espanto ao lembrar que foi esse mesmo mundo que te moldou. Pensando bem não foi o mundo, foi a alegria que te fez.  E que olhos você tem! Olhos de candura, de inocência e paz. Sempre tive inveja do teu sono. Como é possível dormir assim tão sereno? São teus olhos que te fazem dormir assim, pois estes olhos só veem a beleza, enxergam apenas o bem. E isso me preocupa, porque estes olhos que só conseguem perceber bondade habitam um mundo ainda cheio de maldade. Se cuida, por favor. Pois você só conhece o amor.

 

Meu São Francisco de Assis,
santo e protetor dos animais,
atende o meu apelo,
cuida com amor, carinho e zelo
de todos os bichos desse mundo,
e dê pra eles muita saúde, guarida e paz.

 

domingo, 15 de setembro de 2013

Minas - inefável

Minas by Milton Nascimento on Grooveshark

Em Minas está minha família:
mãe, pai, avô, avó, três irmãos,
tios, tias, primos, primas e a Luana.

Em Minas deixei riso, choro, futebol;
amores castos e paixões avassaladoras, perversas,
mulheres inesquecíveis, outras amadas às pressas;
amigos de silêncios, outros de conversas,
poucas desavenças e muita saudade,
poucas palavras, muito pensamento, muita liberdade.

Em Minas estão, sobretudo, minhas raízes
encravadas no mais profundo solo mineral;
na terra ferrosa, que faz a gente forte,
na terra do ouro, que faz a gente inoxidável,
na terra dos diamantes, que faz a gente ser inquebrantável.

E se hoje parto, é para que no mundo além das suas montanhas,
eu mais te sinta, e você mais me doa,
num amor purificado pela dor da sua distância
física, a que toda metafísica transcende,
e te faz aqui, neste coração
que um dia há de perecer e que bate doloroso,
sempre presente;
e que te faz aqui, neste espírito grave, taciturno em sua contemplação,
eterna habitação.

Minas, tácita e introspectiva,
das procissões e de tantas dores fúnebres,
de prantos e encantos,
de gente a espiar pelas frestas de portas e janelas;
Minas, artística, musical,
de poetas, quitandeiras, construtores, compositores,
de sinos a anunciar sua potestade;
Minas histórica, forte no presente, sublime em sua tradição,
Minas atemporal
livrai-me de tua ausência, maior mal.

Em Minas estou por inteiro,
pois de Minas levo tudo por onde vou
- tropeiro que sou.

Minas real e irreal,
feérica, onírica, indelével.
 – recanto dos meus planos e sonhos,
dos meus gozos, gemidos e ais.
Minas infinita além das serras,
meu lugar, minha terra,
Minas Gerais.

Em Minas nasci, em Minas espero morrer,
mas em Minas quero mais viver.

Spike

 Tava nublado o dia, me lembro muito bem disso; nublado, meio frio e bastante carregado, tava assim o clima daquela tarde inesquecível para a minha melancólica lembrança. Tinha ido à casa de um colega, pra conversar bobeira, espairecer, tentar esquecer, mas nada adiantava, nada. Meu colega falando sobre suas novas composições, tocando algumas músicas do Nirvana, nessa época ouvia muito Nirvana, mas isso também só fazia lembrar o amigo, o companheiro, o irmão, que a essa hora tinha o fio da vida cortado pela tesoura afiada de Átropos. Acho que já eram umas quatro horas da tarde quando resolvi encarar meu medo e voltar pra casa, voltar pra realidade, saber das novas. Ele tinha ido pro veterinário na tarde passada; tinha piorado muito nos últimos dias. Não queria comer nem beber nada, mas lambeu num esforço dantesco, as lágrimas que escorriam dos meus olhos, minutos antes do último abraço. Nunca esquecerei aquele último olhar, olhar inocente, doce e amedrontado, pedindo para não deixar que o levassem, para estar comigo até o fim, assim como o combinado. Mas eu o entreguei, não sabia o que fazer, ele mal respirava, deixei que o levassem, tentando me enganar esperando a sua volta; foi, mas não voltou.

  Pêlo preto com pontos amarronzados, fofinho, meio liso, meio anelado. Os olhos castanhos  ficam a maior parte do tempo cobertos, mas não escondidos; tem olhar penetrante, cativante. Chegou novinho, veio de Belo Horizonte; vomitou muito na viagem, tadinho, ficava enjoado em viagens. Nosso amor foi à primeira vista, a amizade logo se consolidou; eita cachorro folgado sô, vivia no colo, no meu colo, e foi assim que ele se entregou a mim. Acho que a gente tava vendo Tv, novela mesmo. De repente escorre um liquido quente em cima de mim, “puta que pariu Spike, puta que pariu”; tinha urinado em mim, mas logo compreendi a profundidade por traz daquela “mijada”; era um pacto, uma prova de confiança, ele não faria isso em qualquer um, pode parecer loucura, mas não é, aquilo foi sim uma entrega, naquele momento nós soubemos, é pra sempre. Ele adora ouvir musica, a gente ouvia muito, ele gosta muito de Guns n’ Roses, não gosto de todas deles, mas fazer o que, isso acalma o Spike, acalma não, porque ele é o pai da calma, mas deixa feliz, saltitante, então tenho que ceder um pouco também. Ração ele não é muito chegado não, faz cara feia pra comer, gosta mesmo é de arroz, feijão e sardinha. Mas tem uma ração que ele come, é uma que tem um formato de ossinho, essa ele come, mas às vezes se faz de difícil, aí é só colocar um pouquinho de arroz que o safado come tudinho, até lambe o prato. Adoro fazer ele de bobo; tem vezes que vou sair e ele vem atrás, aí falo com voz grossa: “pó ficar onde cê tá, Spike”, e ele fica paradinho com aquela carinha de dó, carinha capaz de derreter qualquer iceberg, mas me faço de duro, e passo o portão; espero um tempinho, vejo pela gretinha e ele tá lá, paradinho olhando pra frente, esperando o dono maldoso voltar. Aí não agüento mais, bato na perna e ele vem correndo e pula no colo. Jogo do galo é um espetáculo à parte; quando sai gol do glorioso, ele vibra mais que eu; quando o galo toma, eu fico puto, aí ele vem me acalmar, deita na minha perna e pede pra acariciar; quando juiz rouba, é a vez dele ficar puto, cachorro justiceiro, absorvi muito dele esse ideal de justiça; todo jogo do galo é assim, fortes emoções. Desde 2005 ele não vê um jogo, perdeu o rebaixamento pra segunda divisão, isso foi bom ele ter perdido, mas em compensação, não viu o Tardelli sendo artilheiro do Brasileirão. Chega de descanso meu filho, tá na hora de voltar; vem bidinho, precisa ter medo da Luana não, ela é grande mas é mansinha, vem, domingo o galo joga, tenho até bandeira agora, vem, vamo ver o galo ganhar...

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Declaração

São tempos áridos estes, preta. Por isso, peço-te paciência. São tantas as mudanças... E dá vontade de mandar tudo a puta que pariu, dar uma porrada nuns e noutros... Mas eu vou "levando de teimoso e de pirraça" e de vez em quando eu tenho mesmo que recorrer à cachaça... Mas passa, tenho certeza que passa... São tempos frenéticos, escassos, e também por isso eu tenho falado pouco e me virado tanto de lado. Mas eu te peço, aguenta que vai melhorar... Enquanto isso, escuta o grande Vinícius...

"Ah, mundo enganador
Paz não quer mais dizer amor
Ah, não existe coisa mais triste que ter paz
E se arrepender, e se conformar
E se proteger de um amor a mais
O tempo de amor
É tempo de dor
O tempo de paz
Não faz nem desfaz
Ah, que não seja meu
O mundo onde o amor morreu
Ah, não existe coisa mais triste que ter paz
E se arrepender, e se conformar
E se proteger de um amor a mais
E se arrepender, e se conformar
E se proteger de um amor a mais"

(Vinícius de Moraes e Baden Powell)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Impressões de um mineiro matuto sobre Sergipe - A chegada

Eram exatamente 13hs quando desembarquei em Aracaju. Ao descer do avião (descemos na pista) senti um mormaço sufocante. Estava muito quente e julguei que o calor excessivo vinha ou das turbinas e lataria da aeronave ou do asfalto da pista – pouco tempo depois constataria meu engano. Ao entrar na sala de desembarque senti um alívio na temperatura, peguei a mochila e relaxei. E eis que a verdade se e revela: saindo do aeroporto o calor das turbinas e do asfalto se espalhava por todos os lados! Não eram o avião ou o asfalto as causas daquele calor dos infernos, essa quentura toda estava no ar, no chão e em todos os lugares imagináveis! Constaria ainda que durante a noite o calorão continuava... Pensei que não aguentaria, mas aguentei (o ser humano é um bicho muito adaptável- feliz e infelizmente); uma água de coco gelada ameniza tudo... Só a cerveja é que não fica gelada (e isso é muito ruim, mas o lugar te faz passar de boa por cima deste problemaço). E não só aguentei como decidi ficar... Mas isso fica pra depois... Há tanta coisa a se dizer sobre esse lugar, os costumes, as belezas etc.; porém as pessoas são o que mais me chamou a atenção – não poderia deixar de ser assim. Como é que esse povo, e de digo esse povo generalizando mesmo, consegue se manter tão humano? Há um sorriso fácil em cada rosto, conversas surgem inesperadamente em todos os lugares, em filas de banco, na padaria, no quiosque da praia; as pessoas param as outras na rua pra conversar fiado; como é que esse povo pode ser tão dado (pra usar uma expressão nordestina) assim, meu Deus? Para um mineiro, ser que está quase sempre desconfiado e vive escondido atrás das montanhas, isso chega a ser assustador. É claro que fiquei desconfiado dessa gente. Mas confesso que já estou me rendendo... Há tanta alegria nesse lugar, tanto sol (não gosto muito, confesso), tanta luz, tanto mar... Ah, o mar... O mar é algo insondável para os mineiros. O contato com o mar me arrebata, me deixa perplexo e calado diante da sua imensidão misteriosa....

Que lugar é esse, Deus meu? Sergipe que eu não quero mais entender, pois uma coisa já aprendi com o pouco contato que tive e estou tendo com essa gente: às vezes o melhor jeito de se conhecer algo é sentindo...

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Reflexivo (Affonso Romano de Sant' Anna)

"O  que não escrevi, calou-me.
 O que não fiz, partiu-me.
 O que não senti, doeu-se.
 O que não vivi, morreu-se.
 O que adiei, adeu-se."