quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Oração



Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois, é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Amor, Paixões, Traição



O olhar perdido que fita da janela do hotel a rua lá fora sem, no entanto nada ver, é o mesmo olhar com que ele já não tem coragem de encarar o retrato que há sete anos leva na carteira. Há dois dias morando no hotel JB, Tiago ainda não conseguiu assimilar o impacto devastador da ruptura. O chão abriu-se sob seus pés, e agora, tendo o mundo se desintegrado sem reservas nem avisos, fica a sensação de uma absurda paralisia e evanescimento de toda a realidade, pois que é a realidade senão o chão firme no qual vemos a possibilidade de construir e converter em substância todos os sonhos planejados para o mundo desejado. Há dois dias vive no hotel, há dois dias ao voltar do trabalho a surpresa: a mulher havia descoberto que ele tinha um caso; sim, Tiago, o paladino da moralidade, dos bons costumes mineiros, defensor da fidelidade e tido como incorruptível, levava há quase cinco meses, uma vida dupla. Onde está agora a inexorável determinação com que condenava outros? “Comigo nunca”, costumava falar após execrar alguma ação alheia. Mas nunca é palavra que carrega um tempo grande demais pra ser dita assim, sem maiores escrúpulos e reflexão demorada. Nunca é um tempo impensável para nós, humanos tão falhos e imprevisíveis; nunca é palavra inefável que, quando falada é profana, equívoca. O erro do nunca é que geralmente quem diz essa palavra, o faz com uma convicção ideal e cega, e esquece-se da natureza tão real, concreta e volátil do ser- humano. Quantas vezes Tiago disse nunca... E para si próprio. Sim, ele realmente acreditava que aquilo não aconteceria a ele, homem resoluto, sério e que de toda a alma se sabia devoto da mulher. E realmente era assim. Tiago não só amava como ainda ama, e de todo o seu ser, sua esposa Maria. E a lembrança de cada lágrima que descia dos olhos da mulher é agora a faca que lhe corta o peito. Nada poderia doer mais do que a consciência de ter feito sofrer a pessoa que ele mais ama no mundo. Mas um amor tão grande pode deixar brechas a serem preenchidas? Não seria esse sentimento, tido como o mais sublime, tão exaltado por poetas e filósofos, bastante para fazer completa uma pessoa? Talvez não fosse assim tão grande... Mas não! Não poderia ser, e Tiago sabia, ou melhor, sentia isso. E por mais que esse quadro pareça ser colorido com as cores do drama, o verdadeiro sentido aqui presente é aquela parte que temos vontade de esconder: a tragédia da vida. O embate da razão com as sensações, com os sentimentos; o inesperado, o confuso, o ardoroso, o incontrolável impulso da vida que quer a todo instante mostrar-se viva, em movimento. E esse impulso tem horror ao que se tranquiliza, e por isso busca o novo e se entrega fácil ao que provoca o pathos da novidade. Mas como explicar a traição? Há explicação? Hábito, rotina, impulso incontrolável...? Há perdão? Há sempre uma reação pra toda ação. O perdão pode existir mesmo diante de algo que, como já feito, não pode evitar as reverberações das ondas de seus sons? O homem, digo homem e não o ser humano, é tão apegado ao ver, é um ser tão visual que parece haver nele uma afecção quase que incontrolável; um impulso que o faz cair e procurar e querer toda mulher; talvez um grito da natureza ou, como já mencionado, da própria vida que busca a todo instante se impor, se renovar e se garantir no mundo. Mas quê? Explica-se assim? Podem-se dar outros nomes a isso: safadeza, canalhice, imbecilidade... Fraqueza? Fraqueza pode redimir a culpa, pode tornar impessoal o pessoal; e como crescer assim, se há sempre o alívio? Há quase sempre a redenção... E a fraqueza continua... Entretanto, não há como não considerar a hipótese da natureza, do impulso animal – não que isso redima a culpa – como força dominadora. Com Tiago foi assim. Não resistiu ao deslumbre e ao furor da estagiária do escritório. Uma menina. Sim, uma menina quinze anos mais nova que ele e que sua mulher. Agora sofre. O mundo desabou. Os planos sonhados e, muitos já realizados, estão indo todos por água abaixo. E o impulso, a afecção a dominar de modo tirânico a razão dos homens. E isso a ponto de nos privar do sentimento, da sensibilidade. Sim, nós homens somos muitas vezes – ou na maioria delas- insensíveis. E talvez isso explique um pouco a infidelidade. E das mulheres? Das mulheres nada sei, por isso nada digo. Sei dos homens? Talvez nem isso... Talvez saiba só de mim... Quem sabe nem isso... Fato é que provavelmente seja uma certa falta de sensibilidade que nos impele tanto a não conseguir domar o desejo por outras. Pois, o desejo por outros, pelo variado, pelo novo, esse talvez seja próprio do ser humano e não só dos homens, mas também das mulheres – e penso isso quase como um postulado. Mas há nas mulheres uma razão sentimental, uma inteligência, uma subtilidade de espírito e uma sensibilidade tão grandes que as fazem domar melhor tal desejo. Talvez... Só hipóteses... Dos mistérios do humano nada sei, e penso mesmo que ninguém sabe, ou se sabe, sabe muito pouco. Na verdade, a razão nesses assuntos pouco faz, pois tem a teoria, mas carece da prática, e “na prática, a teoria é diferente”. E assim segue a vida. E se hoje não durmo num quarto de hotel, durmo numa cama de solteiro, triste, arrependido, melancólico, mas sustentando a esperança do perdão, e mais uma vez reconhecendo a superioridade feminina quando o assunto é amor.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Canto para te contar


Incrível como contigo minha angústia passa;
como todo mal se esvai
no abraço em que você me enlaça.

Quero sempre assim, devagar
deixar a vida ir sem o peso das minhas mágoas,
sem ter que pedir um momento
pro tempo
que reclama ao relógio
a hora de voltar.

Imagine morena,
o meu estado,
pois ao ver o teu retrato,
me lembro das curvas tuas, do cheiro, da manha...
e que ao ouvir a minha voz
o teu corpo todo se assanha.

Suspendo a razão quando você está;
nada julgo,
tudo que é alheio a nós eu deixo pra lá...
pra viver a paz de ter assim,
só pra mim,
todinho meu,
o encanto teu.

E é por isso que eu tenho medo
de ter de acordar
com a dureza do mundo a fazer castigo,
que é quando não tenho teu efeito de musa pagã
a guiar meu amanhã;
quando não sinto no meu peito
o teu rosto a repousar,
quando não corre pelo meu corpo
o amor
que o teu coração bombeia
na minha veia
pra minha alma acalentar.



domingo, 9 de dezembro de 2012

Morena

 Para Veroníca...




Vem,
Morena,
Minha vida serenar,
Alivia a ânsia do teu cheiro,
Do gosto do teu beijo,
Do encanto do teu olhar,
Pra que no teu sorriso,
O meu equilíbrio,
Eu possa encontrar.

Vem,
Volta pra São João,
Que longe, não há fim
Pro desespero do meu coração
Que vive, assim,
Garimpando a memória,
Contando as horas
Olvidando a razão.

Vem,
Que em mim te faço um abrigo,
Te dou colo
E no meu abraço
Te enlaço;
E digo que não há o que temer
Ainda temos muito por viver.

Vem,
Volta a cantar
Aperta minha mão
Ouve o coração
Pra sempre
Vou te amar...

Vem,
Traz meu alento,
Pois vou me perder
Fora do espaço e do tempo
Num lugar onde não há perecer,
Simbiose de existir,
Num só ser,
Eu e você.

São João del-Rei, dezembro de 2012.

Suspensão




Goldberg Variations Aria by Johann Sebastian Bach on Grooveshark 
"Sê humilde no ouvir, bondoso no julgar."

Suspender o juízo. É isso que quero hoje. Pelo menos hoje, nem que seja apenas por algumas horas. Quero pegar um filme e assisti-lo por assistir. Nada de julgamentos estéticos, sociais, culturais etc. Fazer do pensamento um hábito. Sim!, há bons hábitos! O pensamento é o vento que varre as formas de areia que o nosso cotidiano congela em preconceitos. Ainda bem que são de areia... Entretanto certas formas se solidificam de tal modo, que se faz necessário quase um tufão para destruí-las. Aí surge um problema. E os resultados são ruins. O juízo deve ser suspendido, mas o pensamento não, pois é da destruição dos velhos juízos, feita pelo pensamento, que a possibilidade de novos surgirá. A vida e o mundo são tão plurais, tão grandes, tão aparentemente insondáveis, que às vezes a melhor coisa a se fazer é parar um pouco e apreciar... Humildade... Não resignação, mas humildade. (Acho que teria que explicar pra alguns que possam vir a ler isso, este conceito de humildade, mas hoje estou meio letárgico, portanto, vou deixar que o texto cumpra o seu papel de ser aberto às diversas interpretações, embora eu o tenha escrito hoje, sob uma perspectiva muito peculiar). Humildade pra entender que é preciso parar e observar. Parar, destruir e renovar. Humildade para se movimentar; pra encher o peito de coragem e ousar sair do conforto das convicções, do perigo das ideologias, da catástrofe do não-pensamento e do juízo universalizante-atemporal. Tenho lido muita coisa ultimamente, literatura, filosofia, poesia, e em livros, jornais, revistas, blogs etc. E também tenho visto e ouvido muita coisa também. E cada vez mais, eu me convenço de que a gente sabe tão pouco, e chego mesmo a rir de quem sabe muito... Porque o muito, nesse caso – pra pessoas cada vez mais automáticas, atomizadas e massificadas -, é o nada. O muito, nesse sentido, significa ir, na mesma direção, mas em sentido contrário. Lembrei-me de algo lindo que Jesus disse... Mas pera aí, não vou dizer. Hodiernamente – pra usar uma palavra que os acadêmicos adoram – é pecado falar em Jesus, Deus, religião etc. Por que cê escreve Deus com d maiúsculo? Uai, porque aprendi assim. Sinal de respeito. Minha mãe me ensinou. Teve uma época, ainda quase recente – a adolescência, e talvez eu ainda esteja nela, mas em outro sentido – em que tudo ficou errado, ultrapassado. E Eu, mais alguns poucos com os quais eu comungava, sabíamos o segredo da vida e do funcionamento caótico das coisas. É realmente ainda estou imerso nessa fase. O bom – ou talvez não – é que sei que tem tanta gente assim. Somos uma massa de adolescentes rebeldes, tarados, mas sem causa e sem tesão... Suspender o juízo é disso que preciso. Suspender o juízo e reativar o pensamento, a humildade e o espanto diante da vida. Pronto, hoje é domingo, vou lá na casa da minha vó e ela vai ter que fazer biscoito frito pra mim. Tanto tempo que não como isso... Biscoito frito e café na caneca esmaltada, foda-se o calor. Eu quero é rememorar o doce espírito da criança...

Divinópolis, dezembro de 2012

domingo, 25 de novembro de 2012

Onírico indelével



Hoje sonhei com você.
Sua pele morena me enebriava
e você sorria.
Seu sorriso já não era mais metálico, frio;
era suave, doce, acolhedor.
Eu te via surpreso.

Passei as mãos pelo seu corpo,
pude sentir seu cheiro, seu calor.
Queimavam-se incensos.

Foi então que você tirou a fantasia
e eu lembrei que dormia.

Você está morta.
Não, é o seu amor que está morto.
Não, nem você nem seu amor morreram.
Apenas passaram, vão a outras paragens.
É que tudo passa.

Eu acordei numa cama de solteiro
com os pés para fora.
É que meu corpo cresce quando sonho com você.
Cresce pra cobrir seu vazio.

É que o meu amor teima em não passar.
Sem você
se isola, foge,
e assim, 
segue arredio.

São João del-Rei, novembro de 2012



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O amor

Tive Sim by Cartola on Grooveshark

O amor é indomável,
já surge querendo ser livre
- e fadado à dor.
Não aguenta clausura,
quer sempre voar.
Nasce pra ser abraçado, beijado,
escrito, lido, falado,
de-cla-mado!
Quer se mostrar,
mais que isso,
quer se ofertar
- razão de existir.

E é por isso que mesmo quando
não se tem mais
aquele que é amado,
o amor volta ao passado;
canta à musa que já não volta,
os seu “ais”.
Rasteja, pede, chora,
arranca os cabelos,
desespera,
é recusado,
desdenhado
e dói.

Mas o amor não é só dor,
renova-se sempre em seu próprio ardor,
e mesmo quando não mais se espera,
mesmo quando a pessoa declara:
“Chega, ao amor nunca mais!”,
o amor surge
de repente,
pungente,
quente,
e enche de alegria
a vida da gente...

Divinópolis, 15 de novembro de 2012.

domingo, 18 de novembro de 2012

Sobre os produtos acadêmicos e afins




Por Tiago

Na reunião dos conselheiros da Grande Academia...

Sr. Dermival Cappado:

- Um texto pra cumprir a função instrutiva e social que lhe cabe, deve ser simples, direto; deve resignar-se e levar em consideração as condições sócio-economico-culturais daqueles aos quais pretende atingir. Deve evitar recursos de estilo, enfeites, metáforas, poesia, beleza, expressões filosóficas. Sim! Sobretudo as expressões, termos e conceitos filosóficos devem ser evitados. O povo não entende essas coisas, então pra quê fazer? Nosso povo precisa é de conhecimento real, técnico, praticável, aplicável. Esqueçam os Guimarães Rosa, os Kafka, os Dostoievski, os Aristóteles, sim! Esqueçam esses tolos. Eu trago a nova ordem, a revolução, o progresso. O novo positivismo que, agora aperfeiçoado por mim, e besuntado com os grandes e salutares óleos do tecnicismo, estabelecerá nossa marcha evolutiva! Cada membro da Grande Academia deverá produzir ao menos oito artigos por ano – temos que acabar com essa coisa de que brasileiro é preguiçoso. Vamos aprender com nossos amigos industriários a otimizar nossa produção. Vamos mostrar ao mundo quem é que produz! Vamos mostrar que além de ter o maior número de conquistas de copas do mundo, também teremos o maior número de pesquisas acadêmicas! E em todas as áreas!

Nisso os outros membros começam a aplaudir vigorosamente. Em seguida gritam o nome de Dermival.

Membros:

 - Cappado! Cappado! Cappado!


Nesse ínterim, um dos membros – Chico Alecrim, o único que não havia se manifestado – depois de cessados os gritos e aplausos, disse:

            - Mas seu Cappado, o senhor não acha que perderemos muito em qualidade dessa maneira? Porque ao que parece, as propostas do senhor dizem de modo um tanto, como posso dizer... parece que teremos de ser produtores, fazedores, reprodutores, e não pesquisadores. Fiquei com a impressão de que a Grande Academia, da forma como o senhor e os senhores membros a querem, vai ficar um tanto medíocre, com textos cada vez piores, escritos por especialistas que mais parecem funcionários de uma indústria; apertadores de parafuso, encaixadores de peça, todos atomizados, cientes apenas de sua função. “Eu sou Dr. em apertar parafusos”, “Eu sou bacharel em encaixotamento”, “Eu sou mestre em plastificação”... Sim, beleza. Mas você pode me dizer como faço pra tomar água aqui? “Ai, eu não sei, não. Minha área é os parafusos”; “ a minha é encaixotar”; “pergunte ao gerente”.

Os membros são tomados por um grande espanto
Membros:

            - Oh, Oh, Oh! Ohhhh! (reparem que eles levam a mão à boca)
Demirval se inflama:

            - É por isso que você não consegue nada. Por isso que é um professor falido, desacreditado, que não consegue incentivos, bolsas. Você é um parasita, um inútil. INÚTIL! Mexa-se, Chico! Pare de ser esse escorado. Pare de pensar e comece a agir! Eu vi seu currículo, você é um parado. Seu nível de produção é baixíssimo. Seu INÚTIL! VAMOS, PRODUZA! PRODUZA! PRODUZA! PRODUZA! PRODUZA! PRO-DU-ZA... P-R-O-D-U-Z-A...


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Com licença estética



"Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera".

- Adélia Prado


(re) Construções

As Vitrines by Chico Buarque on Grooveshark




Ella olha perdida;
O sorriso não dissimula a melancolia.
As coisas vão bem – ella diz;
mas não.
Eu, do meu lado,
sigo sem fazer barulho – calado.
Ella me ignora,
foge,
some,
cospe,
desdenha.
Eu, ainda preso às minhas (re) construções diárias,
Imagino,
sonho,
faço e refaço as impressões
- renovo sensações;
e ainda escrevo
e rabisco seu retrato;
pra sempre exercer
o fardo
de não esquecer.
É que eu preciso fazer isso,
pois esse sentimento,
o aperto que eu sinto no peito e
que eu já não sei se é amor,
ainda punge por ella.
E embora eu “queira” [pareça querer],
ele não se transfere,
fere;
não dissimula,
pula;
e de veia em veia
corre pelo corpo todo
a anunciar:
que sim!,
a ella
me cabe amar...

[- és meu inesquecível
e grande torto amor;
e a construção não para...
- segue imperecível]


Divinópolis,  novembro de 2012.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

sábado, 10 de novembro de 2012

Opinião

Living by Moby on Grooveshark
“O amor comeu minha paz e minha guerra (...). Comeu meu silêncio...”.
João Cabral de Melo Neto

Acho muito chato ter que falar sobre vegetarianismo, mas tenho de fazê-lo. Justifico: tenho que me defender de alguns ataques. Serei breve. Sou vegetariano, somente sou. Não professo nada, nenhuma ideologia – se é que isso é uma ideologia. Creio que não é. Para mim, vegetarianismo é só um modo de vida, uma maneira de se alimentar e, na minha opinião, mais correta que uma dieta que inclua carne; na minha opinião, só isso. (Opinião, doxa em grego, tem em um de seus significados, o sentido de aparência. Minha opinião é o modo como vejo o mundo que aparece pra mim, dokei moi). Pois bem, não ataco quem come carne. Entretanto, creio que inevitavelmente chegará um tempo em que a dieta vegetariana será adotada por quase toda a humanidade. Qualquer um que tenha um pouco de bom senso e que esteja disposto a considerar outras opiniões, verá que, embora muitos digam o contrário, inclusive médicos, nutricionistas etc., é fato que podemos viver muito bem sendo vegetarianos. Temos outras fontes de vitaminas, proteínas etc. etc. Consideradas essas questões mais práticas, tenho que fazer referência aos motivos éticos que, pelo menos pra mim, são os mais importantes na escolha do vegetarianismo. O fato de matar um animal, um ser inocente, de criar uma indústria de morte apenas para satisfazer meu paladar, me enoja, me afasta da minha humanidade, da minha sensibilidade, da minha racionalidade. Não cobro que todos parem de comer carne – e quem sou eu pra fazer isso? Não sou imbecil pra pedir que um trabalhador braçal ou alguém que não tenha condições de adotar uma alimentação saudável (responsável) e que exclua carne, seja vegetariano. Não! Mas há muitas pessoas que podem sim, levar uma vida saudável e sem carne. E sobre essas eu me dou o direito de questionar a postura carnívora, assassina, impensada e insensível que adotam. Pois quem come carne é sim assassino. Só há matança porque há demanda que a justifique. Mas como eu disse, o vegetarianismo, pelo menos por enquanto, é um modo de vida “póstumo”, pertence ao futuro, demanda evolução. “Mudanças de atitudes, requerem mudanças de sensibilidade”. Enquanto o homem for apenas homem, e não ser humano, isto é, homem e mulher realmente humanos, com razão e sensibilidade em harmonia, não há como cobrar algo assim. Enquanto o homem for apenas homem, teremos que continuar escrevendo sobre vegetarianismo, sobre direito dos homossexuais, das mulheres etc. Teremos que continuar falando, discutindo essas questões, até que haja respeito, até que nasça a humanidade dos seres humanos. Pra concluir, só peço que respeitem todas as perspectivas possíveis. Não há razões pra se desrespeitar quem come ou quem não come carne... 

"Não importa  se os animais são incapazes ou não de pensar. O que importa é que são capazes de sofrer " (Jeremy Bentham).

Divinópolis, novembro de 2012.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Revolta contra o cigarro


Hoje, pela nem sei mais que vez, resolvi parar de fumar. Acordei, tomei meu café, peguei um livro e o corpo e, acho que também a alma, pediram o cigarro. Resisti. Aí vim pra universidade. Passei direto pelos meus três botecos favoritos – como foi difícil! Na padaria comprei quatro cartelas de chiclete – me disseram que ajuda. Mas na universidade o trem fica feio. Em todo canto tem alguém fumando. E o foda é que parece que a gente fica associado ao cigarro com o tempo. Umas seis pessoas já vieram me pedir o isqueiro. Tenho não. Parei de fumar. Tô enchendo o peito pra falar Parei de fumar. Dentre outros, três motivos em especial me fizeram ter pulso pra me obedecer e parar. Porque há muito já venho tentando, mas é aquela história: tinha muita vontade de parar, mas a disposição pra obedecer a essa vontade era fraca demais. Voltando aos motivos, o primeiro é que o preço do cigarro aumenta, mas minha grana não. Por diversas vezes tive que escolher entre o pão e o cigarro. O cigarro ganhou na maioria delas.  O segundo é que não quero ficar impotente. É como na música do Chico “Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio, pele e osso simplesmente quase sem recheio”... Já pensou se fico impotente?! Credo em cruz!, como diz minha avó. O terceiro, último e mais importante motivo é que só vejo idiotas fumando. Venho pra universidade e vejo esse monte de bichos-grilos magrelos, barbados, com roupas estranhas, caras estranhas, aspectos estranhos, conversas estranhas – geralmente filosofia. Sim! Esses estudantes de filosofia! E eles são como espelho pra mim. Eles me refletem! E é isso que me deixa doido. Porra! Eu sou assim? Eu virei isso? Quando? Como? Virei um farrapo desses?! Meu Deus me ajuda! E eu nem creio em Deus mais! Não! Não, eu creio sim. A primeira coisa a fazer é voltar a sentir o peso da natureza, da harmonia do mundo, da verdade, disso que pra mim é “Deus”. Não me importa o que pensam esses “intelectuais”. Odeio essa palavra! Odeio com força! In- te- lec- tu- al... Chupa o meu... Opa! Calma. Desculpem-me. Me excedi. Mas é que isso me deixa puto. Intelectuais. Estudantes de HUMANAS. Em nome de tudo que é humano, tudo é permitido. Tolos! Putos! Magrelos, de óculos, fumando e falando sobre filosofia! E tem gente que acha graça nisso! Meu Deus! Não há graça nenhuma nisso. Não tem nada de cult, nada de nerd ser legal. Porra! Eu uso óculos porque eu tenho uma deficiência na visão. Daria tudo pra não ter que usar isso. Eu sou magrelo porque a natureza quis zombar de mim quando me fez. E eu fumo porque não consigo aguentar o tranco! Mas eu vou parar! Oh, vou comprar três maços de Lucky Strike e vou fumá-los todos de uma vez, num dia só. É minha despedida. Dessa vez eu paro...

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Mulher helênica


Mães tem uma mania estranha de mexer com a gente. Arte obscura, mística, quase mágica. Minha mãe é uma mulher simples, e eu a via como uma pessoa de pouco cérebro e muito sentimento – estava enganado. Viveu e vive para os filhos e para o marido. Suspendeu sonhos, suprimiu desejos. Passou por crises de todas as estirpes. Foi traída, mas nem em pensamento traiu. Resignou-se ajoelhada pela salvação da família. E não fosse sua forte humildade cristã, eu diria que ela é uma perfeita mulher de Atenas. É, falta apenas o paganismo, porque até da alma ela abriu mão; submissa diante da vida e das condições que ela impõe. E por quê? Talvez por fraqueza, ou por ter medo de não aguentar sentir o chão depois de tanto tempo em suspensão; talvez por dependência, por hábito... Não! Nada disso. Foi amor... Foi por ser maior. Foi por sentir. Por ser e sempre estar além de todos nós – seus dependentes.
É mãe, hoje me deu uma saudade de você. E eu sou tão menor, tão medroso, tão menino, que não aguento lhe encarar e dizer isso – portanto, escrevo. Fecho os olhos e me lanço no teu peito. E você, mulher pequena e frágil, me toma nos braços e me enche com essa doçura que me revolta, que eu tento afastar por não poder suportar tanto amor gratuito. Esse amor que não pede nada, que não precisa de nada pra se fazer cada vez maior. Por que, mãe? Por quê? Você me atravessa feito navalha, corta meu íntimo, vasculha meus sentimentos e, por mais incrível que pareça (seja), entende meus pensamentos. E tudo isso com uma sutileza de espírito e sagacidade que me deixa atordoado e raivoso. Mas eu? Eu, que me “vejo” entendido em tantas filosofias; eu, o dissimulado, racionalista frio, emotivo calado... Você me olha com esses olhos grandes, verdes, absurdamente verdes, úmidos, submissos. Fico puto com esse seu olhar inocente. Ele me devora, invade, desnuda. Por que, mãe? Por quê? Eu não consigo entender. Como pode? Talvez isso não seja matéria a ser entendida. Tratando-se de você, mãe, as ideias são fracas e as elucubrações vazias. Em seu autocárcere privado você sustenta tantos mundos... Essa noite eu só queria poder sentir o seu cheiro e te tomar a benção, mãe... Mais nada. Juro que mais nada...

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Sensível


Ela perguntou, “por que você nunca escreve nada pra mim hein, Tiago?”. Eu respondi que quando as musas faltam, as letras se calam. Ela chorou e disse que sou insensível. É. Talvez eu seja. Ou talvez eu seja sensível demais pra fingir. A verdade é que eu fiquei com ela pra tentar preencher um vácuo. E vácuo é uma coisa doida. Quem estudou física sabe disso. O vácuo puxa o que tiver na frente, só pra não ficar vazio. Mas às vezes é melhor ficar vazio, pois há coisas que nos preenchem com abismos. Com solidões maiores. Lembro que, certa vez, logo no início, eu disse pra ela que gostava de poesia e que tocava violino. Ela disse que eu parecia uma pessoa sensível. Mas ela falou de um jeito esquisito, achei estranho. Aí eu perguntei: cê tá me chamando de veado? Lembro também que na mesma hora, ela mudou de opinião e me chamou de grosso, cavalo, imbecil. Sou um imbecil! Primeiro sensível, depois e agora insensível. É até engraçado. Tenho vivido uma angústia insuportável. E ainda querem que eu pare de beber e de fumar. Insensíveis! Porra! O mundo virou um mar de insensíveis; pessoas máquinas mecânicas. Onde estão os corações? Onde encontro sangue? Amor? Acho que nunca cheguei a amá-la, mas me casei, e muito por causa da cintura e da bunda que ela tinha. Tinha não. Ainda tem. Ela ainda é gostosa pra caralho. Mas é como se não fosse nada.  Ela não representa nada pra mim. Paradoxal, né? Sim, paradoxal para os insensíveis. Hoje, nem tenho vontade de comê-la mais. Eu me sinto sujo, só, frio, quando estou com ela. Me sinto um objeto. Não vejo sentido nisso. É. Eu não sou insensível. Eu sou é um canalha, covarde, vil, moleque, pois eu tô estragando a minha vida, e pior, a vida dela. Ela precisa de alegria, de calor, de carinho, de atenção, de sexo, de sacanagem, de amor. Não de uma pessoa vencida, de um homem indiferente, que vive de luto por alguém que não morreu. Ela precisa de vida, não dessa minha ataraxia. E eu também preciso de vida, de alma, de alguma força motriz, pois, assim como para escrever, para viver também é necessário inspiração, é preciso sangue. Vou dar um jeito nisso...


São João Del-Rei, outubro de 2012.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Apelo pagão



Salva-me de teus ímpios e déspotas fiéis,
que te transformam em vil besta ante minha
sofrida e desamparada visão,
perdida em tão grande confusão.

Não quero-te deus, javé, nem alá;
desejo-te puro e simples como água cristalina a serpentear.
Vem-me sem imposições fanáticas e cruéis;
abraça-me nu, sem camisetas, cruzes, fitas coloridas, lágrimas e comércio.
Mostra-te como és, e quem és?

Retira-te de onde nunca esteves,
leva-me à natureza,
Acaricia-me a face com o vento.
Fala-me em tua língua, canto de pássaro e farfalhar de árvores,
tira-me o fétido (e doentio) ar servil
- que a ti não serve.
Odoriza-me com as flores,
Ilumina-me a alma ávida,
mas não cobres resignação,
antes, faz-me forte para enfrentar minha cegueira.

Vem, Força magnífica que do Uno fez Caos,
e que do Caos fez a beleza trágica da vida.
Conduze-me à minha natureza,
a mim mesmo,
para que, completo...
eu te sinta... 
veja.


São João Del-Rei, outubro de 2012.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Trigonometria do absurdo


A noite é tão calada. Preciso de algo que me entretenha. Se eu pudesse alugaria um canal de futebol 24h – me cortaram a TV a cabo. Tenho fugido dos filmes, do teatro, até mesmo dos livros. É que eles sempre me remetem à minha própria história, e eu quero fugir dela. Mas a noite, a noite me tranca comigo mesmo. E tem o sono, que nunca vem, e assim, fica inevitável me encarar. E esse outro eu, esse meu daimon, sempre a me repetir que ela não se separa, não separa. Aí, eu respondo, pra tentar aliviar, repetindo as coisas que ela fala. “Calma, há de vir a hora. Você não me ama? Então, entenda. Há de vir a hora...” Eu entendo. Entendo porque a amo, e suporto tudo com uma raiva desgraçada a me corroer por dentro. E tem o filho. Eu sei, é um filho. Filho é o ser mais importante da vida de uma pessoa. Eu sei, e afirmo isso. Entretanto o filho é dele. Daquele desgraçado. Mas o que? Sou eu o desgraçado, não? Ele já estava ali, ele já existia antes de mim. Porra! E saber que ela o amou; talvez ainda ame!... Isso me dá ânsias de vomitar. Ela deitada na mesma cama... Eu finjo, repito pra mim mesmo que não há mais nada entre eles. Engano-me. Não! Tento me enganar... Mas no íntimo sei que não dá. E essa minha outra voz, rouca, macabra, agourenta, sempre dizendo coisas pra me abalar: ele tá lá... entre as pernas dela... dividindo o mesmo banheiro, os mesmos copos, os mesmos livros, os mesmos programas de TV, as alegrias e as tristezas, as dores de barriga do filho e as gracinhas que ele faz; dividindo as preocupações, as trivialidades cotidianas, o supermercado, enfim, a porra da mesma vida... Desgraçado! Desgraçados! Mas não sou eu o desgraçado? Eu que cheguei depois... E a mesma voz a dizer que ele veio primeiro, e que o primeiro sempre estará lá. Mesmo que ela não queira, mesmo que faça tudo pra evitar... Ele estará... Em cada ato meu. Na saída do banho, no jeito de comer, na maneira de sentar, de vestir, de falar, na cama... Em cada ato meu... Eu vejo refletido naqueles olhos, naqueles olhos que eu tanto amo e que tanto me cortam e depois desviam o olhar... Eu sinto em cada toque, até na respiração dela... Percebo a tácita comparação, e sei que ele está lá e está aqui também. Está em mim. Já não sai mais... Pode ser que toda minha inquietação seja essa droga desse meu machismo, essa disputa, esse medo de perder, de ser inferior a outro... É, pode ser vaidade, egoísmo, raiva,... Pode ser que isso me encha de ciúme e me faça tão desconfiado.  Fato é que não posso continuar vivendo com isso. Não suporto imaginar outro. E isso impede a confiança; me tira o sono, me faz imbecil. Se eu pudesse ao menos chorar... Mas não. Estou seco. Sou seco. E esse sentimento a me matar aos poucos... E é absurdo! Porra! Eu cheguei depois. Malditos sejam os fracos! E ela não separa... não separa... E essa trigonometria absurda... Tudo abstrato, e absurdo. Não vejo outra solução. Ela, ele e o filho sempre serão ela, ele e o filho... Não vai haver separação... E essas mulheres vazias a passar por mim. Bares, puteiros, bebidas, drogas e no fim, o silêncio vazio da solidão. O silêncio da noite calada a me repetir essa fórmula absurda e tão exata: ela, ele e o filho. Isso não acaba. E eu? Eu a tangente desse triângulo que nunca se separa...