segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Irritar e provocar


Que me desculpem meus professores, mas depois de minuciosa observação e demorada reflexão, uma verdade se me revelou: a melhor maneira de se prolongar as “delícias” dos tempos de estudante é fazer-se professor universitário. Sem generalizar; que isso fique claro também. Não sei se me faço entender a todos, a frase ficou um tanto aforismática... A você, leitor de espírito perspicaz e humor irreverente, tenho certeza que sim! Muitos acharão ruim; alguns me chamarão de idiota, alienado... Outros de sagaz, sincero, enfim, muitas coisas. Aceito todas, menos mentiroso. E qual é a função de um filósofo, senão morder, picar, fazer coçar, incomodar e, sobretudo, sempre botar uma pulga atrás da orelha e “bagunçar” as coisas... Como dizia o grande pernambucano Chico Science, desorganizando a gente também pode organizar... Sábias palavras! Uns, te darão pão, outros circo; ambos são necessários! Eu me contento em causar coceira, revolta, quem sabe até asco; mas sempre querendo te bagunçar, pra quem sabe, movimentar, acordar... E também mostrar que nem só de Apolo vive a humanidade, mas também de Dionísio. E isso é lindo! A coisa mais bela da vida é o seu aspecto trágico... Entende? Mas isso é matéria pra outra oportunidade. Voltemos ao assunto do momento. Há mais coisas entre os gabinetes, salas e corredores de uma universidade, leitor, do que supõe a nossa vã filosofia...

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Casos de família

Acontece by Cartola on Grooveshark
Nota explicativa sobre o título: existe um programa de TV com o mesmo nome do título dessa história; quis evitar ao máximo tal nome pra não fazer referência ao programa, mas como não achei nada melhor, fica este mesmo. Não tem nada a ver com “aquilo”. Então, falando em aspas mais uma vez, peço, como dizia Shakespeare: Sê amável no ouvir, bondoso no julgar. E senta que lá vem a história...

Quem vê João Eurico assim, alegre a brincar com o filho, João Eurico Jr., enquanto espera o jantar que sua amada e bela mulher prepara, não imagina as inquietações que perambulam lhe o peito... Ah, que vida tem o João! Sete anos de um esperado e harmonioso casamento; e há dois anos a coroação, o que tanto esperaram e um tanto mais adiaram: um filho! Que vida! Isso sim é uma família feliz! Dessas como não mais se vê nem mais se faz... Isto, entre outras coisas, dizia quem os visse. Benza-os Deus! Acontece, que eis o bom João, pai de família devotado, trabalhador; homem de casta e obstinada fidelidade à mulher, confuso. Eis aqui, nosso João Eurico, encostado ao beiral da sacada, olhar perdido contemplando a imensidão do céu, com a ideia não menos longe, embriagada pelos olhos... Sim, leitor sagaz, acertastes tudo. Trata-se de outra mulher. Chama-se Helena. Moça elegante, entre vinte e vinte e cinco anos; inteligente, com uns ares maduros que, a despeito da idade e mesclados aos trejeitos de menina, a enchem desse encanto peculiar esbanjado pelas ninfas; cintura fina, quadril levemente largo, magra, usa uma blusa preta – desculpem minha ignorância, não sei o nome da blusa, por isso limito-me a descrição – que cobre os braços, mas insinua os seios, um botão apenas, na altura média do peito, a barriga também fica descoberta, porém, leva também uma camisa branca por baixo. Linda, essa Helena; e uns olhos... Só os homens sabem o quanto os olhos de uma mulher podem leva-los tanto ao paraíso, como à ruína... Os dela, em particular, tinham uma luz viva, estranha ao entendimento, melancólica; eram cheios de uma volúpia inocente e lasciva. Grandes olhos verdes, cílios longos e sobrancelhas grossas, selvagens, ariscas, enfim, um conjunto instigante e magnético. Com que arte obscura e divina a natureza os fizera... Débil linguagem humana, incapaz de descrever o deslumbre desses olhos que, agora, metem João nesse torpor enigmático. No quarto, a mulher assiste novela e aninha Joãozinho; ali, na sacada, João, perdido em pensamentos e sensações alheias ao aconchego da família, fuma um cigarro após outro; atitude mecânica, impassível... Ser humano, leitor; quem é que pode se dar a certeza...
Continua...

domingo, 19 de agosto de 2012

Retrato pra Cecília


            Cecília é sonho e melancolia; mas nada de tristeza, ela finge alegria. Tem um anjo que a protege, lá de cima, lá do céu. Quando pensa nele, ficam marejados seus olhos cor de mel. Margaridas são suas flores preferidas. Gosta de chá e é vegetariana. Ama os bichinhos, sobretudo os gatos. Tanto que os leva até na pele. Cranberries lembra ela, mas o fundo musical da sua vida é Beatles. Dear Prudence, open up your eyes... Dear Prudence, see the sunny skies... Cecília é inteligente que só ela! Adora ler; é naturalista e clássica. É elegante, grave, sisuda e tem maneiras finas; toma vinho e cozinha muito bem. Cecília é uma dama, palavrão é só na cama. Mas também é menina; faz gracejos e desatina. Tem um humor irônico, quase cáustico. É um doce, tem enorme coração. Só não a deixe zangada, pra não conhecer a acidez de alguém nascido sob o signo do escorpião. Quando fica sem dormir, vira uma fera; azeda rapidinho, mas não faz por mal. Tanto que logo logo retorna à graça natural. É branquinha, magra, esguia e delicada; não passa esmalte extravagante, não usa salto e cheira a bebê. Tem boquinha pequena e covinha no rosto de lindas maçãs rosadas. Parece que é grega. Mas é brasileira, bem brasileira! Come arroz com feijão e é louca por figos. Cecília é Lira Romantiquinha. Eu a amo, mas ela não me quer pra amorzinho. Cecília, minh’alma chora frio e tristinho, não te comove este textinho?

E aê, mae... gostou? Só falta falar que ficou piegas...

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Um amigo, um espelho e um mote encantador


Ah, como me encanta a natureza humana! Como é bela! E com que ardor e deslumbre sempre me pego surpreendido a contemplar suas... Por ora suspendamos as exclamações e os elogios; isso me pode servir de matéria para uma poesia... Sim! Alguns versos rimados e ritmados; talvez um soneto. Quem sabe uma ode! Ah, alma minha humana; tão humana que não se cansa de... Como podes ver sou um grande amante da natureza humana; não que eu tenha pretensões de psicólogo ou filósofo; hoje, a mim me bastam o encanto e a admiração. E desse encantar e admirar é que me veio os pensamentos que venho expor aqui. Se valerão a alguém alguma conta, isso não sei. A mim valeram um espanto revelador, e da revelação nasceu a vergonha. Vou explicar. Acontece que dia desses, ao ler uma estória que escrevi para mais tarde ler para minha filhinha e fazê-la dormir, me peguei em verdadeiro deleite com a beleza do escrito. Li, reli e li mais tantas vezes. Era linda, garbosa, harmônica. Uma belezura; achei. Tudo bem... Admito. Pareceu-me perfeita. A mais bela estória jamais escrita. E ela me lembrou de um fato ocorrido na época de estudante. Ah, alma humana e seus mistérios... Naquele tempo, um amigo me pediu que lesse um conto que ele havia feito. Não, não; ele fez questão de lê-lo a mim. Terminada a leitura, disse que ainda faltavam alguns retoques, pouca coisa, só a lapidação; mas que me mostrava em bruto pelo grande apreço que me tinha. Pediu minha opinião. Eu disse que havia gostado, e que o achara digno, bom. Ele ficou espantado com minha resposta; acho que esperava mais ênfase ou ânimo de minha parte, tanto que redarguiu: “Mas, assim... bom? Bom ou muito bom?”. Lembro que ele deu ainda um risinho meio irônico e acrescentou um “quem sabe talvez, ruim?”. Disso me veio um assombro. Como se fosse um espelho, meu amigo me refletia a mim mesmo. Importante dizer também que, nesse tempo nós nos tínhamos por latentes talentosos escritores. Só faltando o ato para confirmar a potência, como diria o velho Ari, Aristóteles pros mais acanhados. Ah, bons tempos... Fato é que era notória sua decepção. Ele queria aplausos, tinha por magnífico o conto. Entendes o assombro? Eu também era assim. Tinha que meus textos eram qualquer coisa de sublime, de não fazer feio a nenhum Platão, Voltaire, Dostoievski, Victor Hugo, Dante, Virgílio e Homero. Entretanto, na verdade, os seus textos, assim como os meus, eram no máximo razoáveis. Quando muito, dignos de serem lidos, porque em sua grande parte não traziam muitos erros gramaticais e tinham até certa organização de ideias. Mas eram enfadonhos, pobres de estilo, vazios de originalidade e formosura. Os meus, em particular, tinham um quê de imitação. Sempre fui um leitor voraz - tanto que cheguei uma vez à conclusão de que são a literatura e a minha filha que me salvam de cair no niilismo – e visto que, sempre fui também pusilânime no tino, nunca pude manter fidelidade a estilo nenhum. Dizem que é coisa normal, que a gente muda com o passar do tempo. Não sei, mas eu mudava o tempo todo. Como pessoa que troca de roupa ou de gosto musical de acordo com a moda, assim eu me vestia, ora de herói e príncipe, ora de vil escarnecedor. Como lia muito, tinha variada gama de estilos e autores na prateleira da ideia. Só sei que tentava imitá-los, – creio que inconscientemente, ou por falta de identidade, mas isso não é matéria pra mim – mas com a vontade fraca e volátil que tinha, nunca consegui passar do esboço. Acrescentemos a isso a carência de talento, – coisa que depois reconheci – e eis que do desenho só me ficava o rabisco. Enfim, eram ordinários os textos. Tanto que após essa descoberta vinda do assombro, decidi, persuadido de minha mediocridade literária, abandonar as letras e me fazer engenheiro eletricista. Meu amigo persistiu por mais tempo na ideia de escrever. Não deu muito certo. Hoje serve a Deus. Virou pastor evangélico e ganha a vida com as bênçãos do altíssimo e com a boa fé dos fiéis. Eu, só voltei a escrever agora, depois de muitos anos, e só para atender ao insistente pedido da Leninha, - Helena, minha filha – que cansada das estorinhas repetidas que eu lhe contava todas as noites, fez-me ter de novo com a caneta. O que é que um pai não faz por amor aos filhos, não é mesmo!? Entretanto, não é que agora, lendo e relendo outra vez a estória – trata-se de uma gralha que não podendo cantar transferiu toda sua arte pra pena – vejo que até que ficou bem bonitinha a danada; e até volto a concordar com minha primeira impressão. Pra ser sincero, lembra-me um pouco Charles Dickens; e, se não ganha, também não perde em nada para um Sitio do pica pau amarelo ou para um Menino Maluquinho. Pensando bem, talvez eu possa voltar a escrever... Quem sabe uma poesia como disse no começo?... Álvaro de Campos não era também engenheiro?! Ah, como me encanta a natureza humana!... 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Tempo


T... e... m... p... o... T... e... m... p... o... T... e... m... p... o...
Tem... po... Tem... po... Tem... po...
Tempo... Tempo... Tempo...
Tempo; Tempo; Tempo;
Tempo, Tempo, Tempo,
Tempo! Tempo! Tempo!
Tempo?
Tempo é água
Ora empedra
Ora flui
Sempre evanesce quando tento entender       

                                                   

Dia de frio


Hoje, dia 13 de agosto de 2012, faz frio em Divinópolis, Minas Gerais.
Daqui a 2 meses e alguns dias,
Faço 25 anos de pouco choro, pouco riso, alguns desatinos e muita  
                                                                                              [inquietação. 
Ontem foi dia dos pais, e espero ansioso pelo momento de viver os dois 
                                                                                              [lados desse dia...
É madrugada e tenho insônia de tanto pensar nela, que
nesse mesmo país, esquecida de mim,
dorme num lugar mais quente;
talvez sem precisar de cobertor...

domingo, 12 de agosto de 2012

O Cigarro



Enterrei no quintal meu último maço. Por que fiz isso? Sei que daqui a pouco tempo, quando a fissura ficar insuportável... Lá vou eu pegá-lo. Será que é por isso que faço assim? Porra, preciso dar um jeito nisso! Mês passado decidi, pela imemorável vez, parar de fumar. Havia quatro cigarros no maço. Os quatro últimos da minha vida... Tirei com cuidado o primeiro, apertei-o delicadamente. Porra! Isqueiro de merda! São só mais quatro... Logo agora... Não. Quanto é? Dois reais. Me vê o branco. Comprei o isqueiro; é para acender o fogo do meu triunfo sobre a minha vontade. Mas esse triunfo não se deve também à vontade? Tento ser estóico. Perco-me em metafísica, mas que importa agora os devaneios? Não os quero. Ah, o suspiro confortante. Que sensação!... Palavras não podem descrevê-la; é ilimitada, sublime! Fecho os olhos e de repente estou noutro lugar. Abro-os e admiro a corrente fluida dos meus pensamentos materializada pela fumaça.  "E saboreio no Cigarro a libertação de todos os pensamentos." Sinto uma melancolia saudosista ao lembrar que são os últimos. Sim! "O cigarro é o tipo perfeito do perfeito prazer.. e é estranho como, ainda assim, não satisfaz"... Ah, Penélope e sua eterna malha nunca acabada... Fico preso nesse ciclo prazer-querer. Está feito. Apago, a derradeira ponta fumegante. Ainda me ficou o isqueiro... E está tão novo, praticamente cheio... Vou jogar fora. Desperdício! Não! Vou jogar fora! Não aqui em casa, não, não. Não deixarei margem para fracasso... Vou proteger até os calcanhares dessa vez... Sou perigoso, sei disso, já me venci outras vezes. Vou jogá-lo em alguma lixeira bem longe de casa, onde eu nunca mais o veja.
A cidade está mudada ou será que sou eu quem mudou? Talvez os dois, é mais certo. Na pista de caminhada, é lá. Tantas pessoas passeando sossegadamente, o rio bem ao lado, árvores, pássaros, que local inspirador! Paro. Perco-me nas pessoas; em que pensam? Uma senhora anda a passos largos, está com pressa, tem que chegar em casa e preparar a janta pro marido que vai chegar em meia hora, cansado de mais um dia de trabalho na fundição. Ela ouve música, os olhos vão baixos e submissos. Vejo duas meninas cochichando e rindo. São bem bonitas. Curvas com boas medidas, cinturas finas, quadris largos. Diferem apenas nos seios. Uma os tem bem pequenos. Os da outra são médios. Ambos parecem duros. Os homens que passam correndo quase trombam uns com os outros ao virar pra olhá-las. Olha essa bunda!! Diz um que passa. Bens a Deus... Responde rindo o colega. Você tem fogo? Oi? Fogo, isqueiro... Ah, tenho sim. Respondi de forma mecânica, automática e treinada. Valeu, pega um aê. O cara que me retirou do torpor pediu o isqueiro e ofereceu um cigarro logo depois. Existe meio que um código moral peculiar entre fumantes. Não sei por quanto tempo, mas após a oferta, voltei a ficar absorto entre outros pensamentos que passavam rápidos pela cabeça. Os quatro últimos... Cara, pega ae. Oi, ah sim, obrig... valeu. Quer saber, não vou desperdiçar esse isqueiro, quando ele acabar paro de uma vez por todas... E lá estava eu novamente comprando mais um maço. Com o passar do tempo, cheguei ao ponto de me chatear pela repetição das imagens no verso da caixa. Sempre a do efizema. Nada de novidade. Banalizei as imagens. Ou será que simplesmente repeli pra longe da razão? Será? Fato é que ainda penso sobre, e penso muito. Sobretudo quando me lembro das escolhas que fiz, faço e até das que farei. Momentos há,  verdade seja dita, em que me quedo preocupado com as consequências ruins. Mas há outros também, em que dou por certo que vale muito a pena viver grande parte da vida fruindo um prazer tão sublime, mesmo que em troca eu tenha de sofrer alguns anos finais de padecimentos, e considerando todos quanto posso imaginar. Entretanto esses pensamentos passam, e mesmo quando permanecem, o cigarro me se defende com uma retórica maviosa, doce... Convincente.
Por que é que gosto do que me faz mal? Por que o ser humano é assim? Ele me trai e continua traindo, eu sei. Mas sempre o perdoo. Aonde vais orgulho? Não me encaro mais, não tenho dignidade. Não quero romance. Volte cafajeste! Sei que doerá, mas já não importa. Eu gosto. Toma-me. Isso, isso! ISSO! Bate-me! Ah, o gozo...! Ai, meu Deus! Que foi que fiz? Não... Não... Vai-te! Não... Fique... Fique... Ah, merda... Não vivo sem você. Sei que não devia, mas tenho tesão sem tamanho por esse seu vagabundo! Esse traidor... Te amo, puto! Que ele nunca mais saiba, ou pelo menos que eu nunca diga. Isso não! Ainda resta-me um pouco de brio... Ainda assim te quero...
"Deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando".


O ministério da saúde adverte:
FUMAR PODE CAUSAR VERBORRÉIA.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Homem meu


Vem homem meu. Me aperta em teus braços. Me dá a segurança do teu calor. Quero sentir tua barba me espinhando o pescoço; e o cheiro de gato que teu corpo exala pra umedecer minhas entranhas. Te quero forte e rígido. Viril e decidido. Sou a independente abastada clamando por teu jugo. Escorre amor-suor-em-pelos... Faço bolo de cenoura com calda de chocolate pra você comer todo menino. Tenho ânsia das tuas mãos fortes no meu corpo... Passo o pé sobre a perna. Levanto o vestido, insinuo o avental. Me arranca ríspido e lança à mesa. Você parado concerta a lâmpada da varanda... Pergunta se preciso de algo do mercado. Tão meigo e inocente... Minha libido ultrapassa toda explicação, é sofisticada, abstrata, devassa... “Quero que tudo seja intenso, exagerado, louco, porque só assim fico satisfeita”. Ah, se você pudesse entender... Confesso que te vejo com o meu sorridente olhar de menina má sobre a inocência. Mas te gosto assim. Te amo assim. Inocente, bobo e tão naturalmente protetor. Deixa o bigode só uma noite pra mim; depois tira, você fica horrível assim. Camisa de botão. Não me aguento de rir. Que brega. Parece um caminhoneiro. Abre a camisa, quero sentir os pelos do teu peito quente. Eu te amo a ponto de querer chorar. Me abandono em teus braços, frágil, sentida e temerosa. Me aperta vai! Me abraça forte e não machuca nunca, por favor. Eu não aguentaria. Olha nos meus olhos, me encara forte, me faz segura. Preenche meus vazios pra que não sobre espaço pro medo. Me abraça forte, homem. Pois “minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô”.

domingo, 5 de agosto de 2012

Tiago


Observo-a de longe. Sumo por uns tempos. É que às vezes não sou tão forte. O machão cai por terra e o menino chora chamando a mãe. Acho que sou é um grande fingidor. Odeio quando ela diz “enfim, é melhor assim”. Odeio porque me machuca. Tem vezes que penso que é verdade, daí tenho ânsia de vômito, imagino ela saindo com outras pessoas, acendo um cigarro e fumo, fumo muito. Isso ajuda. Tenho outro trunfo que me faz suportar melhor as coisas. Quando fica foda,  desligo o pensamento. Isso mesmo!, paro de pensar, deixo de ser eu mesmo, tantôt jê suis, tantôt jê pense; e assim, não imagino ela com ninguém... ah, isso é bom. É um tipo de prazer diferente; daqueles que vem depois que a dor cessa, não é o ideal, mas é bom... Quando penso que o “enfim, é melhor assim” é mentira, fico feliz,  acho que ela ainda gosta, que ela quer, que faz isso como um joguinho de mulher. Mas o pensamento vem... e destrói tudo. Tento ocupar a cabeça. Tento filmes, livros, musicas, enfim, muita coisa. O foda é que o que era pra fazer esquecer faz lembrar. Puta que pariu, ela ta em tudo. Cigarro, preciso de cigarro... E café, café também... é que estou sem grana pra bebida. Problema é que tenho sido um imbecil, e nem os imbecis suportam gente imbecil. Foda-se. Tudo que tenho a fazer é não olhar, não pensar, não ouvir e não falar... (nela). Tenho que fumar... Vou andar pela cidade. A multidão me faz esquecer de mim. E assim esquecer ela. Impossível! Eu sei, porra! Eu sei... Fazer o que? Tenho que fumar... Odeio aquele filme. Closer. Odeio! Ele me confunde; faz eu me sentir ingênuo e menino. Eu sou homem! Não sou!? E eu já quis ser escritor também, mas escrevo mal. Tenho que fumar. To pensando nela. Vou andar pela cidade; aproveito e compro cigarro. Tenho que parar! Como faço? “Pra parar de fumar”? Também... 

sábado, 4 de agosto de 2012

Das mulheres ou Teoria do avô


Começo esse relato já pedindo desculpas pelo tamanho do texto; não consigo ser sintético. Desculpem-me também se ele peca pela falta de beleza estética e recursos de estilo e etc. É que não sou escritor. Mas me sinto obrigado a gravar algumas histórias que me são contadas. É meu jeito de eternizar quem as contou diante da falta de certeza do além. Por outro lado, faço um apelo para que você, leitor ou leitora, vá até o fim da história. Sei que são tempos céleres, de muito trabalho e pouco lazer; de fast-food, de livros resumidos, quando não apenas a contracapa deles; são tempos de rapidinhas no escritório, ou punhetas e siriricas no banheiro; de ouvir só refrão de música, ver filme no computador, ter relações via rede sociais e de ir ao supermercado de madrugada; por isso sei também que você não tem muito tempo pra desperdiçar; falta-lhe tempo até pra família, uai. Sei de tudo isso; assim mesmo peço que vá até o fim da história. Por quê? Porque ela conta a desventura de um sujeito que conheci; e diz um filósofo pessimista - não direi o nome dele porque não simpatizo com suas ideias – que conhecendo os problemas alheios, as desgraças do mundo e tal, a gente acaba que amainando as nossas próprias. É, pode ser... Se ainda não se convenceu, - minha retórica é torta – vá ao menos pela curiosidade de saber que desgraça é essa que aconteceu ao sujeito. Todos querem ver e comentar a novidade, Renato Russo já dizia. Brincadeira. Ah, última coisa. Vou contar a história em primeira pessoa, pois acho que assim confiro uma maior verossimilhança a mesma. Advirto também que durante o relato, o leitor encontrará, como já pôde ver, linguagem chula em alguns momentos. Novamente peço desculpas... Tudo pela fidelidade à história.
   “Confesso que no dia que minha noiva (ex-noiva) fugiu pra Brasília com meu irmão, eu chorei bastante. Na verdade foi a última vez que chorei. Acho que amei aquela desgramada; hoje nem sei mais. Mas não pretendo falar apenas dela. Quero falar da teoria do meu avô. A teoria é a causa de tudo. Conto a história porque é um modo que encontrei de desabafar, de aliviar um pouco esse peito corroído. Ainda não disse, mas sou um sujeito bem solitário. Pelo menos no sentido de pessoas. Meu pai me ensinou muito sobre a vida. Sou eternamente grato. Entretanto ele não ensinou sobre pessoas. Sempre fui um tanto taciturno, isolado, pensativo. Coisa normal, coisa de criança, dizia minha mãe. Criança brinca, respondia meu pai. Fato é que à medida que o tempo passava eu me isolava mais. Arrumava algumas meninas, mas não suportava passar muito tempo junto. Sobretudo as cobranças me desgastavam demais. Posto que sempre fui um tanto grosso, elas sempre iam embora. Sobre meninas meu pai nada falava. Meu avô sim. Dizia ele que as mulheres eram muito simples. “Tudo que tem a fazer é dar atenção, carinho e sacanagem. Agora, o importante é saber que tem que dar os três pra todas. Quanto à quantidade, isso tem que descobrir sozinho. Varia de muie pra muie. Alguns já nascem com essa sabedoria”, dizia ele, e com um sorriso largo. Meu avô sempre se jactou de ser um garanhão. Pra mim era um idiota. Porém, a despeito das várias besteiras que ele dizia, sobre a teoria das mulheres concordei com o velho em certa medida. Primeiro, pude perceber que as mulheres ora são muito complexas, fortes, decididas e resolutas; ora muito simples, carentes, indefesas, e fracas. Sempre enfeitiçantes e maviosas. Ou seja, são um paradoxo. E paradoxo ou a gente aceita, ou ele nos deixa maluco. Concordo com os dois primeiros termos da teoria, atenção e carinho, porque até um cachorro gosta de ser bem tratado e sempre abana o rabo quando a gente se vira pro lado deles. 
        Já disse que sou solitário? Se não disse, digo agora. Sempre fui muito solitário, hoje o sou num grau absurdo. Absurdo porque tenho modos de um velho ranzinza, carrancudo e chato. E  mais absurdo porque ainda não tenho nem trinta anos. Bem, sou solitário, tenho modos de velho, mas a alma ainda conserva algumas coisas da mocidade, além dos cabelos que ainda são negros e firmes na cabeça. Tenho até muito afeto no peito. Mas não consigo doar pras pessoas, e isso porque não consigo entendê-las. Por isso, moro com vinte e cinco cães e trinta e três gatos, fora os pássaros que sempre vem comer as frutas que coloco na varanda. Tenho necessidade de doar esse afeto. Não posso ver um bichinho sofrendo na rua que vou logo pegando e trazendo pra casa. Mas passo indiferente pelos pedintes da rua. Enfim, dei o exemplo do cachorro pra explicar a atenção e o carinho, porque não entendo as pessoas, mas desvendo todo tipo de bicho. Agora, no que tange à sacanagem também concordo. Porém, gostaria de destacar antes de terminar o relato que, as opiniões aqui expostas são muito particulares, subjetivas, e consoantes à minha própria experiência, logo não devem ser tomadas como universais. Pois bem, concordo quanto à sacanagem, e vou além, acho que ela tem um papel muito importante. Aqui em Minas, por exemplo, tem uma função importantíssima. As mulheres daqui parecem ser educadas pra virar freiras. Não entendo nada da alma humana, mas a observação me mostra que, PARECE QUE quanto mais recatada, quanto mais proibido, quanto mais a coisa fugir do mundinho cor de rosa e angelical, mais loucas elas ficam quando se deparam com uma boa sacanagem. É o famoso adágio: dama na sociedade e vagabunda na cama. Então meu avô estava certo...; a sacanagem, pelo menos por aqui, salva muita coisa... Não falarei mais sobre as sacanagens e não darei exemplos, pois cada pessoa tem as suas preferidas e, meu avô também não me disse. No mais este é um texto familiar. Ah, esqueci uma coisa. Tendo me professado orgulhoso a sua teoria, meu avô me deu um tapinha nas costas e disse que qualquer dia me levaria na casa das tias. Não sei se disse, mas eu tinha quatorze anos na época. Ainda digerindo a teoria, - sempre fui de pensar muito - perguntei pro meu avô se ele não tinha se esquecido do amor. Afinal, todo filme, todo romance e toda novela sempre dizem muito dele. “Ah, sim. Muito bem, vejo que já é quase um homem. Qualquer dia te levo na casa das tias”, falou e repetiu o tapinha. “Amor, amor... isso não. Presta atenção rapaz! Olha aqui no olho”. Ele tinha uns olhos azuis bem grandes, mandões e detetives. Era um sacrifício encarar aqueles olhos. “Amor guarda pra sua mãe, pra sua irmã e pra suas filhas, se vier a ter. No máximo pra uma ou outra tia muito querida. E basta”. Com isso não concordei. Na verdade achei um absurdo. Ele é um velho safado e amargurado. E sacana; olha o tanto de merda que fez a minha avó. E ainda me chama pra ir comer puta. Ele é que é um puto. Tudo isso eu fui remoendo a caminho de casa. Pensei em falar pra minha mãe, mas achei melhor não. Nesse ínterim, sarei a raiva e, como disse, eu tinha gostado da teoria, mas ainda a achava incompleta.  Acrescentei o amor. Agora já me encaminho pro final, prometo. Termino fazendo a cobra morder seu próprio rabo. Não sei se a metáfora ficou boa, então explico. Vou terminar voltando ao inicio. Resumindo: estava eu com os primeiros fiapos de barba despontando na cara, quando fiquei doido com uma menina da minha sala na escola. Depois de algumas investidas acabamos namorando.
      Fui crescendo e nunca me esqueci da teoria do avô, mas aplicava-a de forma “melhorada”, à minha maneira. Atenção, carinho, sacanagem e amor. Como achava que meu avô era um puto, desdenhei seu ultimo conselho. Dei amor, mas como era muito novinho confundi as coisas. Fiquei meloso, dava flores, fazia versinho e babava muito – você rapaz, não se confunda, essas coisas são importantes, sim! O foda é saber dosar, saqua?. Eu não soube. Virei um bobo, chato, uma água morna como dizem.  “O amor... amor... amor cê guarda pra sua mãe”. Resultado: ela fugiu pra Brasília com meu irmão. Ah, ele saiu à cópia do meu avô. Aqui o leitor que já não aguentar mais o texto, ou pela escrita ruim ou mesmo pela falta de graça da história, poderá deixá-la de lado, pois já terminei de contar sobre a teoria do meu avô. Porém, alguém poderá perguntar se sinto raiva de meu do meu irmão ou como ficou nossa relação. E pensando nesse leitor mais curioso irei reproduzir aqui, uma carta que enviei-lhe há mais ou menos oito meses.  Encarem essa parte final como o ensino de filosofia: não serve pra muita coisa, mas distrai e às vezes paralisa  a gente. Nessa época minha mãe esteve aqui em casa e chorou muito. Disse que não suportava ver a família esfacelada; ela estava definhando com o atrito dos filhos. Foi então que resolvi escrever a ele – note-se que nunca tive ódio dele; tive raiva no começo e acho que é normal; o sangue é quente e a cagada foi grande. A carta dizia:
Querido e amado irmão,
            Sinto muita falta do nosso papo torto, do seu abraço forte e de suas trapalhadas. Mamãe está definhando com essa nossa desunião. Papai nem fala sobre o assunto, mas tenho certeza que ele sofre, e muito!, pois sofre calado. Quero deixar bem claro, que te amo muito e que não guardo rancor de você. Também já não tenho mais raiva da Helena, mas fico triste por você estar com ela. Não por ela ter sido minha mulher, bucetas há em demasia nesse mundo, e de todos os tipos, cores, cheiros e sabores... Fico triste porque sei que o que ela fez a mim, fará também a você. Sabe como é, né... gato escaldado tem medo de água fria. Não que ela seja uma vagabunda ou uma puta, adjetivos que já dei a ela em outras oportunidades. Mas porque assim é a natureza do ser humano – e é muito difícil domá-la. Todos nós somos uma caixinha de surpresas, e muitas vezes desagradáveis. Agimos por impulso; somos um animal que como todos os demais é hedonista e tem horror a dor. Portanto, sei que um dia você sofrerá o que sofri. Sei também que não adianta ficar falando, pode ser que isso faça você me odiar. Será preciso que aconteça pra que você aprenda. Como dizia Nietzsche, aprendemos muito mais com a dor. Termino esta carta dizendo que espero ansioso pelo dia do nosso reencontro, venha até a minha casa ver meus bichinhos, tomar um whisky e fumar um baseado. Te amo pra caralho! Um grande abraço, do teu irmão mais velho. Fica com Deus. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Adélia Prado


As poesias da Adélia são especiais pra mim. De certo modo elas vasculham minha cabeça, meus sentimentos e as sensações que experimento na vida e nas pessoas. Talvez por ela contar nosso povo, nossos costumes, nossos medos, nossa culinária, a religiosidade e a depravação escondida e camuflada sob as recatadas vestes do conservadorismo das Minas Gerais. Com cortes secos e precisos, ela parece deixar a realidade despida de todas as suas falsas virtudes. Então, aqui vai um pouco dessa grande mulher. E e como dizia Drummond: "Adélia é lírica, bíblica, existencial... é fogo, fogo de Deus em Divinópolis".


Entrevista 

Um homem do mundo me perguntou:
o que você pensa do sexo?
Uma das maravilhas da criação eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara:
o destino do homem é a santidade.
A mulher que me perguntou cheia de ódio:
você raspa lá? Perguntou sorrindo,
achando que assim melhor me assassinava.
Magníficos são o cálice e a vara que ele contém,
peludo ou não.
Santo, santo, santo é o amor que vem de Deus,
não porque uso luva ou navalha.
Que pode contra ele o excremento?
Mesmo a rosa, que pode a seu favor?
Se "cobre a multidão dos pecados e é benigno,
como a morte duro, como o inferno tenaz",
descansa em teu amor, que bem estás.
                                                                                                          Adélia Prado

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Fred


Dizem os hindus que a mente humana está sempre sedenta por novidade. Toda rotina, tudo que cai no hábito, parece ser tomado por um desencanto tácito e profundo. Talvez isso explique a fugacidade da maioria das relações desses nossos tempos... Talvez isso explique a efemeridade da vida e sua falta de sentido; será ela sem sentido?... Chega de filosofia! Vamos à história.
Fred era um tipo de Sísifo que ao chegar ao topo da montanha, empurrava ele próprio sua pedra morro abaixo, só para ter algo a que buscar. Ficava sufocado ao menor sinal de estabilidade. E talvez isso fosse um laivo que mostrava o quanto o coitado poderia estar na verdade, desesperado para descobrir um meio de se sentir seguro. Quando criança enjoava rapidamente dos brinquedos que ganhava, e isso continuaria por toda vida. As primeiras sensações eram indescritíveis, mas com a mesma força com que causavam deleite, em pouco tempo traziam o tédio e o descontentamento. O primeiro baseado com sua “nóia” foda, e a falta de fogo nas “viagens” seguintes. Os primeiros meses de namoro; o tesão aceso por cada nova namorada, que não ardia mais do que um ano – seu recorde. A euforia com que comemorava cada vitória do time do coração e que, tão logo chegava o fim da partida, desaparecia com o mesmo vigor com que surgia. Tudo agastava o pobrezinho. Nem a música conseguia diminuir seu sofrimento. Não era capaz de ouvir um álbum completo. Colocava a primeira faixa pra tocar e com algum esforço conseguia ouvi-la inteira. Porém, à medida que as outras vinham, pulava para a seguinte sem esperar nem mesmo pelo refrão de algumas.  Quando veio o tempo de ver o que “fazer da vida”, as coisas não foram diferentes. Tentou o futebol, engenharia, direito, psicologia e filosofia. Não sossegou. E mesmo tendo sempre se declarado um racionalista radical, quando começaram os flertes com o niilismo, Fred procurou uma última salvação. Perambulou por todas a religiões, cultos e seitas que teve conhecimento. Nada funcionou. Suicidou-se. Daí em diante só hipótese..., disse o cara que me contou a história, tentando parafrasear algum escritor que me escapa o nome. Acrescentou ainda, em tom axiomático, que há coisas nessa vida que são intocáveis, e que devem ser protegidas principalmente contra o pensamento e a especulação. Dei de ombros, agradeci a anedota e saí. Não concordei com ele e não fosse a falta de material pra algo melhor, esta história não teria sido escrita. Tamanha minha ataraxia...