quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Sensível


Ela perguntou, “por que você nunca escreve nada pra mim hein, Tiago?”. Eu respondi que quando as musas faltam, as letras se calam. Ela chorou e disse que sou insensível. É. Talvez eu seja. Ou talvez eu seja sensível demais pra fingir. A verdade é que eu fiquei com ela pra tentar preencher um vácuo. E vácuo é uma coisa doida. Quem estudou física sabe disso. O vácuo puxa o que tiver na frente, só pra não ficar vazio. Mas às vezes é melhor ficar vazio, pois há coisas que nos preenchem com abismos. Com solidões maiores. Lembro que, certa vez, logo no início, eu disse pra ela que gostava de poesia e que tocava violino. Ela disse que eu parecia uma pessoa sensível. Mas ela falou de um jeito esquisito, achei estranho. Aí eu perguntei: cê tá me chamando de veado? Lembro também que na mesma hora, ela mudou de opinião e me chamou de grosso, cavalo, imbecil. Sou um imbecil! Primeiro sensível, depois e agora insensível. É até engraçado. Tenho vivido uma angústia insuportável. E ainda querem que eu pare de beber e de fumar. Insensíveis! Porra! O mundo virou um mar de insensíveis; pessoas máquinas mecânicas. Onde estão os corações? Onde encontro sangue? Amor? Acho que nunca cheguei a amá-la, mas me casei, e muito por causa da cintura e da bunda que ela tinha. Tinha não. Ainda tem. Ela ainda é gostosa pra caralho. Mas é como se não fosse nada.  Ela não representa nada pra mim. Paradoxal, né? Sim, paradoxal para os insensíveis. Hoje, nem tenho vontade de comê-la mais. Eu me sinto sujo, só, frio, quando estou com ela. Me sinto um objeto. Não vejo sentido nisso. É. Eu não sou insensível. Eu sou é um canalha, covarde, vil, moleque, pois eu tô estragando a minha vida, e pior, a vida dela. Ela precisa de alegria, de calor, de carinho, de atenção, de sexo, de sacanagem, de amor. Não de uma pessoa vencida, de um homem indiferente, que vive de luto por alguém que não morreu. Ela precisa de vida, não dessa minha ataraxia. E eu também preciso de vida, de alma, de alguma força motriz, pois, assim como para escrever, para viver também é necessário inspiração, é preciso sangue. Vou dar um jeito nisso...


São João Del-Rei, outubro de 2012.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Apelo pagão



Salva-me de teus ímpios e déspotas fiéis,
que te transformam em vil besta ante minha
sofrida e desamparada visão,
perdida em tão grande confusão.

Não quero-te deus, javé, nem alá;
desejo-te puro e simples como água cristalina a serpentear.
Vem-me sem imposições fanáticas e cruéis;
abraça-me nu, sem camisetas, cruzes, fitas coloridas, lágrimas e comércio.
Mostra-te como és, e quem és?

Retira-te de onde nunca esteves,
leva-me à natureza,
Acaricia-me a face com o vento.
Fala-me em tua língua, canto de pássaro e farfalhar de árvores,
tira-me o fétido (e doentio) ar servil
- que a ti não serve.
Odoriza-me com as flores,
Ilumina-me a alma ávida,
mas não cobres resignação,
antes, faz-me forte para enfrentar minha cegueira.

Vem, Força magnífica que do Uno fez Caos,
e que do Caos fez a beleza trágica da vida.
Conduze-me à minha natureza,
a mim mesmo,
para que, completo...
eu te sinta... 
veja.


São João Del-Rei, outubro de 2012.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Trigonometria do absurdo


A noite é tão calada. Preciso de algo que me entretenha. Se eu pudesse alugaria um canal de futebol 24h – me cortaram a TV a cabo. Tenho fugido dos filmes, do teatro, até mesmo dos livros. É que eles sempre me remetem à minha própria história, e eu quero fugir dela. Mas a noite, a noite me tranca comigo mesmo. E tem o sono, que nunca vem, e assim, fica inevitável me encarar. E esse outro eu, esse meu daimon, sempre a me repetir que ela não se separa, não separa. Aí, eu respondo, pra tentar aliviar, repetindo as coisas que ela fala. “Calma, há de vir a hora. Você não me ama? Então, entenda. Há de vir a hora...” Eu entendo. Entendo porque a amo, e suporto tudo com uma raiva desgraçada a me corroer por dentro. E tem o filho. Eu sei, é um filho. Filho é o ser mais importante da vida de uma pessoa. Eu sei, e afirmo isso. Entretanto o filho é dele. Daquele desgraçado. Mas o que? Sou eu o desgraçado, não? Ele já estava ali, ele já existia antes de mim. Porra! E saber que ela o amou; talvez ainda ame!... Isso me dá ânsias de vomitar. Ela deitada na mesma cama... Eu finjo, repito pra mim mesmo que não há mais nada entre eles. Engano-me. Não! Tento me enganar... Mas no íntimo sei que não dá. E essa minha outra voz, rouca, macabra, agourenta, sempre dizendo coisas pra me abalar: ele tá lá... entre as pernas dela... dividindo o mesmo banheiro, os mesmos copos, os mesmos livros, os mesmos programas de TV, as alegrias e as tristezas, as dores de barriga do filho e as gracinhas que ele faz; dividindo as preocupações, as trivialidades cotidianas, o supermercado, enfim, a porra da mesma vida... Desgraçado! Desgraçados! Mas não sou eu o desgraçado? Eu que cheguei depois... E a mesma voz a dizer que ele veio primeiro, e que o primeiro sempre estará lá. Mesmo que ela não queira, mesmo que faça tudo pra evitar... Ele estará... Em cada ato meu. Na saída do banho, no jeito de comer, na maneira de sentar, de vestir, de falar, na cama... Em cada ato meu... Eu vejo refletido naqueles olhos, naqueles olhos que eu tanto amo e que tanto me cortam e depois desviam o olhar... Eu sinto em cada toque, até na respiração dela... Percebo a tácita comparação, e sei que ele está lá e está aqui também. Está em mim. Já não sai mais... Pode ser que toda minha inquietação seja essa droga desse meu machismo, essa disputa, esse medo de perder, de ser inferior a outro... É, pode ser vaidade, egoísmo, raiva,... Pode ser que isso me encha de ciúme e me faça tão desconfiado.  Fato é que não posso continuar vivendo com isso. Não suporto imaginar outro. E isso impede a confiança; me tira o sono, me faz imbecil. Se eu pudesse ao menos chorar... Mas não. Estou seco. Sou seco. E esse sentimento a me matar aos poucos... E é absurdo! Porra! Eu cheguei depois. Malditos sejam os fracos! E ela não separa... não separa... E essa trigonometria absurda... Tudo abstrato, e absurdo. Não vejo outra solução. Ela, ele e o filho sempre serão ela, ele e o filho... Não vai haver separação... E essas mulheres vazias a passar por mim. Bares, puteiros, bebidas, drogas e no fim, o silêncio vazio da solidão. O silêncio da noite calada a me repetir essa fórmula absurda e tão exata: ela, ele e o filho. Isso não acaba. E eu? Eu a tangente desse triângulo que nunca se separa...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Margarida

Wonderwall by Oasis/oasis on Grooveshark

Eu a rebatizei Margarida
e esse nome ficou para mim
cheio de um misterioso sentimento
- hoje clandestino.
[O nome tem o poder de presentificar as coisas
- aprendi nas aulas de mitologia.]
Com ele ressurgem
a risada,
a boca que ria,
que falava a voz de menina
e que gemia o prazer e a dor de mulher;
as angústias e as alegrias;
os grandes olhos – castanho-claros;
os seios – figos maduros rosados;
as saias longas e os pés finos sem saltos,
as mãos delicadas sem pintura,
a decoração hippie-retrô,
o estilo clássico-naturalista de ler e escrever a vida,
o cheiro de colônia de bebê,
o cabelo – que eu já não sei se está longo ou curto;
as tatuagens na pele branca
- que eu já não sei mais quantas são;
e a ruptura,
que na tentativa de encobrir a dor,
se fez tácita,
dissimulando calma,
mas que
a despeito de tudo, ainda
fere
     ferro
           fogo
                fundo
                         n’alma.
Margarida,
hoje nome clandestino,
dorme em solo nordestino.
Passou no tempo,
mas fincou-se na memória,
fez em mim guarida,
eternizou-se na minha vida.


Divinópolis, 25 de outubro de 2012.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Cecília

Penny Lane by Beatles/The Beatles on Grooveshark
Como é que se faz pra dizer o inefável? É isso que me perguntei quando pensei em como escrever para e sobre você, Cecília. É que, há certas circunstâncias na vida em que, por defesa, orgulho besta, ciúme etc. e etc., a gente deve se esconder e dissimular certas coisas – infelizmente. Mas enfim, como é que se diz o inefável? Eu tentei dizer com metáforas, lembranças sentidas e escritas e algumas pieguices. O resultado foi esse:  

Me escutas, Cecília?
Mas eu te chamava em silêncio
Na tua presença
Palavras são brutas...
(...)
Eu, que não digo
Mas ardo de desejo
Te olho
Te guardo
Te sigo
Te vejo dormir...
(Chico Buarque)


Cecília é sonho e melancolia; mas nada de tristeza, ela finge alegria. Tem um anjo que a protege, lá de cima, lá do céu. Quando pensa nele, ficam marejados seus grandes olhos cor de mel. Margaridas são suas flores preferidas. É vegetariana, prefere chá a café e adora bolo de cenoura com cobertura de chocolate. É um doce, tem enorme coração. Só dorme com o ar condicionado ligado ou com o barulhinho do ventilador e com os pés cobertos; e sempre inicia seus sonhos antes mesmo de dormir, quando fica pensando e sonhando ainda acordada. Cecília é capaz de cativar e encantar de tal forma, que pode enlouquecer a pessoa mais sã (aconteceu comigo, tenho que admitir) com extrema facilidade, então cuidado ao se aproximar dela. Cecília é uma dama, palavrão é só na cama. Mas também é menina; faz gracejos e desatina. Adora ler; é naturalista e clássica. É elegante, grave, sisuda e tem maneiras finas, usa saia e vestido longos; toma vinho e cozinha muito bem. Tem um humor irônico, quase cáustico. É branquinha, magra, esguia e delicada; não passa esmalte extravagante, não usa salto alto e cheira a bebê. Tem boquinha pequena e covinha no rosto. Parece grega. Mas é brasileira, bem brasileira! Come arroz com feijão e é louca por figos. Cecília é extremamente complexa em sua simplicidade; ao lê-la é fácil perder-se em meio aos encantos e paradoxos das linhas e entrelinhas do livro da sua alma. Cecília é prosa poética enredada com aliterações, ritmo, métrica e rima perfeitas; é metáfora viva, pois é margarida e estrela ao mesmo tempo, é a hipérbole da espécie humana, potencializada em todos os sentidos. Cecília ri, grita, sofre, chora e goza... Extrai ao máximo as cores e alegrias da aquarela da vida e as pinta no doce e simples quadro de seu cotidiano, transmitindo, a todos que a cercam, a verdadeira e singela arte de viver... Cecília é Lira Romantiquinha.

Cecília receba meus sinceros e verdadeiros votos de felicidade! Te desejo muita saúde, harmonia, luz, energia e força pra vibrar e festejar as horas alegres e também para suportar as mais difíceis. Que Deus te ilumine e proteja hoje e sempre.  E lembre-se: ainda te vejo dormir...


Divinópolis, 25 de outubro de 2012.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Ela disse muito mais do que deveria


Ela disse muito mais do que deveria. Ela era muito mais do que eu merecia, do que eu conseguiria suportar. Foi essa a impressão que tive. Fato é que depois disso eu a abandonei. Não fui capaz de entender. Ela se abriu de um jeito assustador. Eu não estava pronto. Será isso aquilo a que chamam companheirismo, cumplicidade? Mas era demais, porra! Entende? Eu fiquei paralisado, aterrorizado, incapaz de continuar. Não suportei. Ainda machuca lembrar... Ainda machuca. Tanto que durante todo esse tempo – já faz mais de oito anos que não a vejo -, eu procurei aniquilar qualquer coisa que insinuasse a menor semelhança com aquilo. Então eu fui puramente animal, mas animal no sentido de um ser que só busca a satisfação rasa, eu não quis o mergulho. Nada de alma, espírito, sentimento ou o que quer que queiram chamar a isso. Só sexo. E o sexo, quando sozinho, entedia. Por isso a impossibilidade da monogamia. Vaguei nas coxas, nos seios, nas bundas, nos cabelos – labor incessante do sedento e nunca satisfeito desejo do corpo quando falta amor. E eu sabia que agia dessa forma. Sim, eu tinha consciência disso. Fui covarde. Tive medo de encarar o abismo do desconhecido, do profundo, pois aquilo, eu sentia, ou melhor, pressentia, poderia me aniquilar; destruir o meu mundo, a minha verdade. Foi numa noite comum de um fim de semana comum. Costumávamos pedir uma comida a noite – geralmente depois do meu futebol -, ver um filme e depois transar. Era tudo perfeito. Era a rotina mais excitante que poderia existir. Era. Nesse dia, ela deitou a cabeça no meu peito, passou os pés sobre a minha perna, e disse que naqueles momentos, ela sabia que eu era o homem de sua vida. Disse que a cada instante que a gente passava junto, ela se abria, se desnudava, e mergulhava cada vez mais profundo e sem medo, em mim. Entregava todo o seu ser ao meu ser.  Foi então que eu senti um arrepio estranho, um aperto esquisito no peito; me desvencilhei e me afastei do seu corpo. Ela achou estranho e arrematou dizendo que me amava mais que tudo. Nessa hora eu sabia que já não podia mais. Ela era grande demais. Aquilo era uma força que eu não podia suportar. Era algo que eu não podia entender, mas que comecei a sentir. E eu sabia que era coisa grande demais. Ela, eu percebi, me ultrapassava de tal modo, que eu já não me reconhecia mais. Então fugi. 

sábado, 13 de outubro de 2012

Beatrice

Prelude by Suite No.2 in D Minor, BWV 1008 on Grooveshark
Estou chata com a vida. Acordei com uma sensação estranha. Engraçado que é estranha apenas porque não consigo entendê-la muito bem; e ela já me tem acompanhado há um bom tempo. Ouvi dizer que pode ser coisa da idade, variações hormonais... Bobagem! Tudo bobagem! Quem me dera alguma variação, alguma mudança, e por mais mínima que fosse – poderia ser até hormonal! Mas não, não! Minha vida hoje é um mar de tranquilidade. Um marasmo. Nenhum movimento. Casamento, os dois filhos já crescidinhos, trabalho na escola – e Marcelo até me deu o luxo de pegar menos aulas depois que ele passou num concurso pra dar aula na universidade. Mas do que é que estou reclamando? Meu deus, eu sou uma mulher realizada! Casada e bem casada, mas independente, mãe, professora... Uma mulher realizada. Mulher realizada? Será que sou? O que é essa tal de realização? É gozado, mas às vezes me esqueço do que sou, e o que sou? Na verdade eu nem quero entender, eu quero sentir. Eu quero a vida pungente, pois é isso, é esse movimento, essa pulsação descontrolada e frenética que corre pelo corpo e agita a cabeça, que me faz sentir gente, humana, viva! Vou dizer tudo, pois já venho suportando por tempo demais esse sufoco que me seca e me deixa cada vez mais inerte. Cheguei a querer fugir. Nem pensei num lugar, só queria sumir mesmo, sem planejar, ir, ir, ir. Ir pra qualquer lugar que me tirasse dessa calmaria insuportável. Ficar longe de marido, dessa casa, dos meus alunos desinteressados, das minhas aulas desinteressantes, até dos filhos. Pronto, falei. Mas sou uma mulher realizada... E nem sou eu quem diz isso. Entretanto, o certo é que nem mulher eu tenho sido. Quando olho o espelho ele já não me reflete. Vejo apenas uma figura informe, não consigo distinguir a mulher que sou ou que fui. É isso, já não sou mais, eu apenas estou. E estou vencida, angustiada, perdida...  

Continua...

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Lying



Essa briga entre razão e coração tem me deixado esquisito. Sabe aquela brincadeira de criança? Uma corda é esticada, cada pessoa fica numa ponta dela, e começa-se a guerra para ver quem é mais forte. O mais fraco sempre cai. É até engraçado. No meu caso é ainda mais engraçado. Dia desses me peguei pensando em você. E já faz tanto tempo que... O coração caiu. Fiquei fraco. E esse mesmo coração – subjugado pela razão – mandou você ir tomar no cú. Aí a razão refletiu e disse que seria prazeroso e que você ficaria satisfeita por tomar no cú. Então o coração se encheu dessa raiva tão peculiar a alguém como eu e te mandou pro inferno. Mas hoje, hoje ele caiu de verdade. E a razão estava ocupada com outras coisas – Filosofias. E quando a razão sai, o coração, passional e impulsivo que é, assume o governo – e de forma totalitária. Se você me aparecesse hoje, acho que te encheria de porrada, coisas do coração. Mas depois, tenho certeza que cairia aos teus pés, beijando-os, chorando e te pedindo perdão. Pedindo pra voltar. A razão está agradecida por você não estar... Já o coração, não. Assim, ele, mais difícil de se convencer por premissas lógicas, segue preso à convicção de que só se substitui um sentimento por outro. Por isso a raiva, o ciúme, o ódio, o amor... Entretanto, embora tente, não consegue dissimular a si mesmo. Por isso o álcool, o cigarro, os livros... É porque o coração ainda te ama. E ama pra caralho, porra! E não aguenta viver “de cara”, ficar “de cara” com a razão. “E assim nas calhas de roda gira, a entreter a razão, esse comboio de corda que se chama coração”.

sábado, 6 de outubro de 2012

Absurdo

Creep by Radiohead on Grooveshark
Vazio... Estranho. Tudo estranho. Absurdo... Pedi a Deus que me fizesse ter fé. E em qualquer coisa que fosse.  É que tenho sido o ateu desesperado pela vontade de sentir Deus... De ter algo sólido a me proteger, mesmo que seja a inversão das coisas que não aceito, mesmo que seja a negação, e por isso nego Deus. Nego e grito por e para ele. Preciso de segurança. Aceito tudo! Qualquer código, valor, conceito ou preconceito que me dê alguma segurança; um mantra, uma tatuagem que grave em mim alguma identidade, mesmo que esta não seja minha, não importa; uma ideia, uma crença, qualquer coisa que me proteja de meus pensamentos, que me proteja de mim mesmo... Pois assim como aconteceu com Édipo, o mundo, o meu mundo, tem se desintegrado ante meus olhos diante do mais ínfimo esforço que faço pra tentar “compreendê-lo”. E é por isso que só tem me restado o absurdo... E o mundo tem se mostrado tão superficial; pessoas que formam massas de espectros nauseabundos, formas sem conteúdos e conteúdos sem formas... Enfim, absurdo... E eu aqui; tomando café e me segurando pra não fumar... Eu poderia suprir minhas fúteis necessidades em compras, mas não tenho grana... O homem fugaz venceu! Nós vencemos! Relações efêmeras, o consumismo cíclico está em tudo, invadiu tudo - e esse não é um discurso esquerdista ou de um pseudo-estudante-de-filosofia-marxista, não -, e por ser cíclico, não passa, mas necessita manutenção. Acho que vou trocar meu celular, ir numa festa de república e ficar bêbado, falar da minha vida em alguma rede social, enfim, movimentar a roda da minha monótona vida de incessante busca por novidade! Se não vem a piração...(risos, muitos risos; depois séria decepção) Absurdo.

São João Del-Rei, Outubro de 2012

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Acetia Feminina (Amizade virtual...)

Paradise by Coldplay on Grooveshark
Amizade virtual...
Por Verônica Motta
Existe amizade virtual? Será que existe amizade real?
Amizade, derivação do termo latim amicus ... tratando-se de uma derivação da palavra amore. Sim, amore. Trata-se de uma relação afetiva, a principio, sem características romântico-sexuais. Sim, esta é a definição de amizade. Mas, o que de fato é amizade? Olhemos dentro da nossa infância... melhor, vamos para a literatura, Os três mosqueteiros, são amigos? E os Power Rangers? O que é amizade?

Penso que, algumas vezes, confundimos o respeito, bondade, com amizade. Temos obrigação de sermos bons. Atenciosos com o próximo, mas isto não nos torna amigos. Nos torna humanos.

O mundo virtual nos trouxe uma possiblidade infinita de relacionamentos. Sim, temos amigos no Japão, Rússia, EUA, Itália, Porto Alegre... Minas Gerais, em todos os lugares possíveis e inimagináveis! Mas isto é amizade?
Não sei. Pergunto, eu sou amiga destas pessoas? Sim... eu sou. Eu sou porque eu me importo, sinto as pessoas. Mas, será que todas as pessoas da quais temos o e-mail, MSN, Facebook, nos torna amigos? Acho que não. Alguns questionam a veracidade das informações. O que para mim é irrelevante. Sim. Não nego que a possibilidade de construir uma realidade fantasiosa é mais fácil no mundo virtual, não posso negar... mas nada impede que seja verdade. Afinal, se eu falo a verdade, porque não pensar que o outro também está falando! Sim, deixamos o egocentrismos humanos para depois.

Partamos de uma premissa que sim, sim, todos são verdadeiros e amigos.  Eu diria que é uma demonstração de confiança. Hoje, no mundo em que vivemos, damos oportunidades às pessoas que não conhecemos, de entrarem em nossas vidas, damos um voto de confiança. Quando estão triste, nos disponibilizamos a ouvir, rir, dar opinião... sim, damos um voto de confiança à pessoas que não conhecemos. E por que fazemos isto?  

Temos medo de abrir a porta para um estranho. Temos medo de sair à noite, então demonstramos toda nossa humanidade através do mundo virtual. Sim, o mundo virtual não machuca, não fere fisicamente as pessoas. E com isto, acreditamos estarmos mais seguros. E cada vez mais, passamos a ter compaixão, e solidariedade pelo mundo virtual. É por isto que acredito quando diz que não entrou porque foi ver o festival de poesia no teatro da cidade. Sim... eu acredito. Não sou a melhor pessoa para explicar o que acontece com o mundo atual. Delegarei isto aos antropólogos... palavra que nem consigo pronunciar. Mas deixarei sim. Como explicar esta transação. Será individualismo? O individualismo mais coletivo que já vi.

Então, sim, acredito que amizade virtual é o ultimo sopro real da humanidade querer ser humana. Querer demonstrar que se importa, que tem sentimentos. Mas como se diz, “a princípio, sem interesse romântico-sexual”. Toda amizade está fadada ao romântico-sexual? É por isto que amizade entre sexos opostos não dão certo? O romântico-sexual acaba prevalecendo? Mais uma vez... não ousarei pronunciar-me ... apenas antropólogos podem o fazer.

De onde vem então a busca pelo próximo? Será que queremos apenas saber da vida alheia para trazer um pouco de conforto à nossa?! Será que isto é amizade? Talvez... uma vez, uma pessoa disse: “prefiro ter empregados do que amigos. Empregados são objetivos e sei o que esperar deles. Não me agradando posso demitir, e amigos não.” No primeiro instante... tive uma revolta, porque eu sou amiga do cara! Putz! Prefiro empregados à amigos. Nossa! Que mané! Pensei... hoje, até que entendo. Algumas pessoas não podem, ou não sabe como dispor o seu Eu, para serem amigos. Esquecemos o significado de amigo. Sim, quando não nos agradam mais, podermos deletar o MSN, o Facebook, o Twitter ... simples.

A amizade hoje pode ser real ou virtual, sim elas existem... o pior de tudo, é que as amizades, hoje, estão descartáveis. Devem ser regidas sempre à medidas de agradar. Não mais preenchendo este querer... são facilmente deletadas. Sim, as amizades reais nos colam na lista negra do celular; mandam dizer que não estão; deixam de nos atender; falam mal da gente; nossos amigos mudam; as amizades virtuais nos deletam; bloqueiam, entram invisível ... nos ignoram.
Então sim, existe amizade real e amizade virtual, sim. A única diferença querido amigo virtual, é que quando você me machuca, a dor ... é real, e não virtual.