domingo, 25 de novembro de 2012

Onírico indelével



Hoje sonhei com você.
Sua pele morena me enebriava
e você sorria.
Seu sorriso já não era mais metálico, frio;
era suave, doce, acolhedor.
Eu te via surpreso.

Passei as mãos pelo seu corpo,
pude sentir seu cheiro, seu calor.
Queimavam-se incensos.

Foi então que você tirou a fantasia
e eu lembrei que dormia.

Você está morta.
Não, é o seu amor que está morto.
Não, nem você nem seu amor morreram.
Apenas passaram, vão a outras paragens.
É que tudo passa.

Eu acordei numa cama de solteiro
com os pés para fora.
É que meu corpo cresce quando sonho com você.
Cresce pra cobrir seu vazio.

É que o meu amor teima em não passar.
Sem você
se isola, foge,
e assim, 
segue arredio.

São João del-Rei, novembro de 2012



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O amor

Tive Sim by Cartola on Grooveshark

O amor é indomável,
já surge querendo ser livre
- e fadado à dor.
Não aguenta clausura,
quer sempre voar.
Nasce pra ser abraçado, beijado,
escrito, lido, falado,
de-cla-mado!
Quer se mostrar,
mais que isso,
quer se ofertar
- razão de existir.

E é por isso que mesmo quando
não se tem mais
aquele que é amado,
o amor volta ao passado;
canta à musa que já não volta,
os seu “ais”.
Rasteja, pede, chora,
arranca os cabelos,
desespera,
é recusado,
desdenhado
e dói.

Mas o amor não é só dor,
renova-se sempre em seu próprio ardor,
e mesmo quando não mais se espera,
mesmo quando a pessoa declara:
“Chega, ao amor nunca mais!”,
o amor surge
de repente,
pungente,
quente,
e enche de alegria
a vida da gente...

Divinópolis, 15 de novembro de 2012.

domingo, 18 de novembro de 2012

Sobre os produtos acadêmicos e afins




Por Tiago

Na reunião dos conselheiros da Grande Academia...

Sr. Dermival Cappado:

- Um texto pra cumprir a função instrutiva e social que lhe cabe, deve ser simples, direto; deve resignar-se e levar em consideração as condições sócio-economico-culturais daqueles aos quais pretende atingir. Deve evitar recursos de estilo, enfeites, metáforas, poesia, beleza, expressões filosóficas. Sim! Sobretudo as expressões, termos e conceitos filosóficos devem ser evitados. O povo não entende essas coisas, então pra quê fazer? Nosso povo precisa é de conhecimento real, técnico, praticável, aplicável. Esqueçam os Guimarães Rosa, os Kafka, os Dostoievski, os Aristóteles, sim! Esqueçam esses tolos. Eu trago a nova ordem, a revolução, o progresso. O novo positivismo que, agora aperfeiçoado por mim, e besuntado com os grandes e salutares óleos do tecnicismo, estabelecerá nossa marcha evolutiva! Cada membro da Grande Academia deverá produzir ao menos oito artigos por ano – temos que acabar com essa coisa de que brasileiro é preguiçoso. Vamos aprender com nossos amigos industriários a otimizar nossa produção. Vamos mostrar ao mundo quem é que produz! Vamos mostrar que além de ter o maior número de conquistas de copas do mundo, também teremos o maior número de pesquisas acadêmicas! E em todas as áreas!

Nisso os outros membros começam a aplaudir vigorosamente. Em seguida gritam o nome de Dermival.

Membros:

 - Cappado! Cappado! Cappado!


Nesse ínterim, um dos membros – Chico Alecrim, o único que não havia se manifestado – depois de cessados os gritos e aplausos, disse:

            - Mas seu Cappado, o senhor não acha que perderemos muito em qualidade dessa maneira? Porque ao que parece, as propostas do senhor dizem de modo um tanto, como posso dizer... parece que teremos de ser produtores, fazedores, reprodutores, e não pesquisadores. Fiquei com a impressão de que a Grande Academia, da forma como o senhor e os senhores membros a querem, vai ficar um tanto medíocre, com textos cada vez piores, escritos por especialistas que mais parecem funcionários de uma indústria; apertadores de parafuso, encaixadores de peça, todos atomizados, cientes apenas de sua função. “Eu sou Dr. em apertar parafusos”, “Eu sou bacharel em encaixotamento”, “Eu sou mestre em plastificação”... Sim, beleza. Mas você pode me dizer como faço pra tomar água aqui? “Ai, eu não sei, não. Minha área é os parafusos”; “ a minha é encaixotar”; “pergunte ao gerente”.

Os membros são tomados por um grande espanto
Membros:

            - Oh, Oh, Oh! Ohhhh! (reparem que eles levam a mão à boca)
Demirval se inflama:

            - É por isso que você não consegue nada. Por isso que é um professor falido, desacreditado, que não consegue incentivos, bolsas. Você é um parasita, um inútil. INÚTIL! Mexa-se, Chico! Pare de ser esse escorado. Pare de pensar e comece a agir! Eu vi seu currículo, você é um parado. Seu nível de produção é baixíssimo. Seu INÚTIL! VAMOS, PRODUZA! PRODUZA! PRODUZA! PRODUZA! PRODUZA! PRO-DU-ZA... P-R-O-D-U-Z-A...


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Com licença estética



"Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera".

- Adélia Prado


(re) Construções

As Vitrines by Chico Buarque on Grooveshark




Ella olha perdida;
O sorriso não dissimula a melancolia.
As coisas vão bem – ella diz;
mas não.
Eu, do meu lado,
sigo sem fazer barulho – calado.
Ella me ignora,
foge,
some,
cospe,
desdenha.
Eu, ainda preso às minhas (re) construções diárias,
Imagino,
sonho,
faço e refaço as impressões
- renovo sensações;
e ainda escrevo
e rabisco seu retrato;
pra sempre exercer
o fardo
de não esquecer.
É que eu preciso fazer isso,
pois esse sentimento,
o aperto que eu sinto no peito e
que eu já não sei se é amor,
ainda punge por ella.
E embora eu “queira” [pareça querer],
ele não se transfere,
fere;
não dissimula,
pula;
e de veia em veia
corre pelo corpo todo
a anunciar:
que sim!,
a ella
me cabe amar...

[- és meu inesquecível
e grande torto amor;
e a construção não para...
- segue imperecível]


Divinópolis,  novembro de 2012.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

sábado, 10 de novembro de 2012

Opinião

Living by Moby on Grooveshark
“O amor comeu minha paz e minha guerra (...). Comeu meu silêncio...”.
João Cabral de Melo Neto

Acho muito chato ter que falar sobre vegetarianismo, mas tenho de fazê-lo. Justifico: tenho que me defender de alguns ataques. Serei breve. Sou vegetariano, somente sou. Não professo nada, nenhuma ideologia – se é que isso é uma ideologia. Creio que não é. Para mim, vegetarianismo é só um modo de vida, uma maneira de se alimentar e, na minha opinião, mais correta que uma dieta que inclua carne; na minha opinião, só isso. (Opinião, doxa em grego, tem em um de seus significados, o sentido de aparência. Minha opinião é o modo como vejo o mundo que aparece pra mim, dokei moi). Pois bem, não ataco quem come carne. Entretanto, creio que inevitavelmente chegará um tempo em que a dieta vegetariana será adotada por quase toda a humanidade. Qualquer um que tenha um pouco de bom senso e que esteja disposto a considerar outras opiniões, verá que, embora muitos digam o contrário, inclusive médicos, nutricionistas etc., é fato que podemos viver muito bem sendo vegetarianos. Temos outras fontes de vitaminas, proteínas etc. etc. Consideradas essas questões mais práticas, tenho que fazer referência aos motivos éticos que, pelo menos pra mim, são os mais importantes na escolha do vegetarianismo. O fato de matar um animal, um ser inocente, de criar uma indústria de morte apenas para satisfazer meu paladar, me enoja, me afasta da minha humanidade, da minha sensibilidade, da minha racionalidade. Não cobro que todos parem de comer carne – e quem sou eu pra fazer isso? Não sou imbecil pra pedir que um trabalhador braçal ou alguém que não tenha condições de adotar uma alimentação saudável (responsável) e que exclua carne, seja vegetariano. Não! Mas há muitas pessoas que podem sim, levar uma vida saudável e sem carne. E sobre essas eu me dou o direito de questionar a postura carnívora, assassina, impensada e insensível que adotam. Pois quem come carne é sim assassino. Só há matança porque há demanda que a justifique. Mas como eu disse, o vegetarianismo, pelo menos por enquanto, é um modo de vida “póstumo”, pertence ao futuro, demanda evolução. “Mudanças de atitudes, requerem mudanças de sensibilidade”. Enquanto o homem for apenas homem, e não ser humano, isto é, homem e mulher realmente humanos, com razão e sensibilidade em harmonia, não há como cobrar algo assim. Enquanto o homem for apenas homem, teremos que continuar escrevendo sobre vegetarianismo, sobre direito dos homossexuais, das mulheres etc. Teremos que continuar falando, discutindo essas questões, até que haja respeito, até que nasça a humanidade dos seres humanos. Pra concluir, só peço que respeitem todas as perspectivas possíveis. Não há razões pra se desrespeitar quem come ou quem não come carne... 

"Não importa  se os animais são incapazes ou não de pensar. O que importa é que são capazes de sofrer " (Jeremy Bentham).

Divinópolis, novembro de 2012.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Revolta contra o cigarro


Hoje, pela nem sei mais que vez, resolvi parar de fumar. Acordei, tomei meu café, peguei um livro e o corpo e, acho que também a alma, pediram o cigarro. Resisti. Aí vim pra universidade. Passei direto pelos meus três botecos favoritos – como foi difícil! Na padaria comprei quatro cartelas de chiclete – me disseram que ajuda. Mas na universidade o trem fica feio. Em todo canto tem alguém fumando. E o foda é que parece que a gente fica associado ao cigarro com o tempo. Umas seis pessoas já vieram me pedir o isqueiro. Tenho não. Parei de fumar. Tô enchendo o peito pra falar Parei de fumar. Dentre outros, três motivos em especial me fizeram ter pulso pra me obedecer e parar. Porque há muito já venho tentando, mas é aquela história: tinha muita vontade de parar, mas a disposição pra obedecer a essa vontade era fraca demais. Voltando aos motivos, o primeiro é que o preço do cigarro aumenta, mas minha grana não. Por diversas vezes tive que escolher entre o pão e o cigarro. O cigarro ganhou na maioria delas.  O segundo é que não quero ficar impotente. É como na música do Chico “Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio, pele e osso simplesmente quase sem recheio”... Já pensou se fico impotente?! Credo em cruz!, como diz minha avó. O terceiro, último e mais importante motivo é que só vejo idiotas fumando. Venho pra universidade e vejo esse monte de bichos-grilos magrelos, barbados, com roupas estranhas, caras estranhas, aspectos estranhos, conversas estranhas – geralmente filosofia. Sim! Esses estudantes de filosofia! E eles são como espelho pra mim. Eles me refletem! E é isso que me deixa doido. Porra! Eu sou assim? Eu virei isso? Quando? Como? Virei um farrapo desses?! Meu Deus me ajuda! E eu nem creio em Deus mais! Não! Não, eu creio sim. A primeira coisa a fazer é voltar a sentir o peso da natureza, da harmonia do mundo, da verdade, disso que pra mim é “Deus”. Não me importa o que pensam esses “intelectuais”. Odeio essa palavra! Odeio com força! In- te- lec- tu- al... Chupa o meu... Opa! Calma. Desculpem-me. Me excedi. Mas é que isso me deixa puto. Intelectuais. Estudantes de HUMANAS. Em nome de tudo que é humano, tudo é permitido. Tolos! Putos! Magrelos, de óculos, fumando e falando sobre filosofia! E tem gente que acha graça nisso! Meu Deus! Não há graça nenhuma nisso. Não tem nada de cult, nada de nerd ser legal. Porra! Eu uso óculos porque eu tenho uma deficiência na visão. Daria tudo pra não ter que usar isso. Eu sou magrelo porque a natureza quis zombar de mim quando me fez. E eu fumo porque não consigo aguentar o tranco! Mas eu vou parar! Oh, vou comprar três maços de Lucky Strike e vou fumá-los todos de uma vez, num dia só. É minha despedida. Dessa vez eu paro...

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Mulher helênica


Mães tem uma mania estranha de mexer com a gente. Arte obscura, mística, quase mágica. Minha mãe é uma mulher simples, e eu a via como uma pessoa de pouco cérebro e muito sentimento – estava enganado. Viveu e vive para os filhos e para o marido. Suspendeu sonhos, suprimiu desejos. Passou por crises de todas as estirpes. Foi traída, mas nem em pensamento traiu. Resignou-se ajoelhada pela salvação da família. E não fosse sua forte humildade cristã, eu diria que ela é uma perfeita mulher de Atenas. É, falta apenas o paganismo, porque até da alma ela abriu mão; submissa diante da vida e das condições que ela impõe. E por quê? Talvez por fraqueza, ou por ter medo de não aguentar sentir o chão depois de tanto tempo em suspensão; talvez por dependência, por hábito... Não! Nada disso. Foi amor... Foi por ser maior. Foi por sentir. Por ser e sempre estar além de todos nós – seus dependentes.
É mãe, hoje me deu uma saudade de você. E eu sou tão menor, tão medroso, tão menino, que não aguento lhe encarar e dizer isso – portanto, escrevo. Fecho os olhos e me lanço no teu peito. E você, mulher pequena e frágil, me toma nos braços e me enche com essa doçura que me revolta, que eu tento afastar por não poder suportar tanto amor gratuito. Esse amor que não pede nada, que não precisa de nada pra se fazer cada vez maior. Por que, mãe? Por quê? Você me atravessa feito navalha, corta meu íntimo, vasculha meus sentimentos e, por mais incrível que pareça (seja), entende meus pensamentos. E tudo isso com uma sutileza de espírito e sagacidade que me deixa atordoado e raivoso. Mas eu? Eu, que me “vejo” entendido em tantas filosofias; eu, o dissimulado, racionalista frio, emotivo calado... Você me olha com esses olhos grandes, verdes, absurdamente verdes, úmidos, submissos. Fico puto com esse seu olhar inocente. Ele me devora, invade, desnuda. Por que, mãe? Por quê? Eu não consigo entender. Como pode? Talvez isso não seja matéria a ser entendida. Tratando-se de você, mãe, as ideias são fracas e as elucubrações vazias. Em seu autocárcere privado você sustenta tantos mundos... Essa noite eu só queria poder sentir o seu cheiro e te tomar a benção, mãe... Mais nada. Juro que mais nada...