quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Oração



Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois, é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Amor, Paixões, Traição



O olhar perdido que fita da janela do hotel a rua lá fora sem, no entanto nada ver, é o mesmo olhar com que ele já não tem coragem de encarar o retrato que há sete anos leva na carteira. Há dois dias morando no hotel JB, Tiago ainda não conseguiu assimilar o impacto devastador da ruptura. O chão abriu-se sob seus pés, e agora, tendo o mundo se desintegrado sem reservas nem avisos, fica a sensação de uma absurda paralisia e evanescimento de toda a realidade, pois que é a realidade senão o chão firme no qual vemos a possibilidade de construir e converter em substância todos os sonhos planejados para o mundo desejado. Há dois dias vive no hotel, há dois dias ao voltar do trabalho a surpresa: a mulher havia descoberto que ele tinha um caso; sim, Tiago, o paladino da moralidade, dos bons costumes mineiros, defensor da fidelidade e tido como incorruptível, levava há quase cinco meses, uma vida dupla. Onde está agora a inexorável determinação com que condenava outros? “Comigo nunca”, costumava falar após execrar alguma ação alheia. Mas nunca é palavra que carrega um tempo grande demais pra ser dita assim, sem maiores escrúpulos e reflexão demorada. Nunca é um tempo impensável para nós, humanos tão falhos e imprevisíveis; nunca é palavra inefável que, quando falada é profana, equívoca. O erro do nunca é que geralmente quem diz essa palavra, o faz com uma convicção ideal e cega, e esquece-se da natureza tão real, concreta e volátil do ser- humano. Quantas vezes Tiago disse nunca... E para si próprio. Sim, ele realmente acreditava que aquilo não aconteceria a ele, homem resoluto, sério e que de toda a alma se sabia devoto da mulher. E realmente era assim. Tiago não só amava como ainda ama, e de todo o seu ser, sua esposa Maria. E a lembrança de cada lágrima que descia dos olhos da mulher é agora a faca que lhe corta o peito. Nada poderia doer mais do que a consciência de ter feito sofrer a pessoa que ele mais ama no mundo. Mas um amor tão grande pode deixar brechas a serem preenchidas? Não seria esse sentimento, tido como o mais sublime, tão exaltado por poetas e filósofos, bastante para fazer completa uma pessoa? Talvez não fosse assim tão grande... Mas não! Não poderia ser, e Tiago sabia, ou melhor, sentia isso. E por mais que esse quadro pareça ser colorido com as cores do drama, o verdadeiro sentido aqui presente é aquela parte que temos vontade de esconder: a tragédia da vida. O embate da razão com as sensações, com os sentimentos; o inesperado, o confuso, o ardoroso, o incontrolável impulso da vida que quer a todo instante mostrar-se viva, em movimento. E esse impulso tem horror ao que se tranquiliza, e por isso busca o novo e se entrega fácil ao que provoca o pathos da novidade. Mas como explicar a traição? Há explicação? Hábito, rotina, impulso incontrolável...? Há perdão? Há sempre uma reação pra toda ação. O perdão pode existir mesmo diante de algo que, como já feito, não pode evitar as reverberações das ondas de seus sons? O homem, digo homem e não o ser humano, é tão apegado ao ver, é um ser tão visual que parece haver nele uma afecção quase que incontrolável; um impulso que o faz cair e procurar e querer toda mulher; talvez um grito da natureza ou, como já mencionado, da própria vida que busca a todo instante se impor, se renovar e se garantir no mundo. Mas quê? Explica-se assim? Podem-se dar outros nomes a isso: safadeza, canalhice, imbecilidade... Fraqueza? Fraqueza pode redimir a culpa, pode tornar impessoal o pessoal; e como crescer assim, se há sempre o alívio? Há quase sempre a redenção... E a fraqueza continua... Entretanto, não há como não considerar a hipótese da natureza, do impulso animal – não que isso redima a culpa – como força dominadora. Com Tiago foi assim. Não resistiu ao deslumbre e ao furor da estagiária do escritório. Uma menina. Sim, uma menina quinze anos mais nova que ele e que sua mulher. Agora sofre. O mundo desabou. Os planos sonhados e, muitos já realizados, estão indo todos por água abaixo. E o impulso, a afecção a dominar de modo tirânico a razão dos homens. E isso a ponto de nos privar do sentimento, da sensibilidade. Sim, nós homens somos muitas vezes – ou na maioria delas- insensíveis. E talvez isso explique um pouco a infidelidade. E das mulheres? Das mulheres nada sei, por isso nada digo. Sei dos homens? Talvez nem isso... Talvez saiba só de mim... Quem sabe nem isso... Fato é que provavelmente seja uma certa falta de sensibilidade que nos impele tanto a não conseguir domar o desejo por outras. Pois, o desejo por outros, pelo variado, pelo novo, esse talvez seja próprio do ser humano e não só dos homens, mas também das mulheres – e penso isso quase como um postulado. Mas há nas mulheres uma razão sentimental, uma inteligência, uma subtilidade de espírito e uma sensibilidade tão grandes que as fazem domar melhor tal desejo. Talvez... Só hipóteses... Dos mistérios do humano nada sei, e penso mesmo que ninguém sabe, ou se sabe, sabe muito pouco. Na verdade, a razão nesses assuntos pouco faz, pois tem a teoria, mas carece da prática, e “na prática, a teoria é diferente”. E assim segue a vida. E se hoje não durmo num quarto de hotel, durmo numa cama de solteiro, triste, arrependido, melancólico, mas sustentando a esperança do perdão, e mais uma vez reconhecendo a superioridade feminina quando o assunto é amor.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Canto para te contar


Incrível como contigo minha angústia passa;
como todo mal se esvai
no abraço em que você me enlaça.

Quero sempre assim, devagar
deixar a vida ir sem o peso das minhas mágoas,
sem ter que pedir um momento
pro tempo
que reclama ao relógio
a hora de voltar.

Imagine morena,
o meu estado,
pois ao ver o teu retrato,
me lembro das curvas tuas, do cheiro, da manha...
e que ao ouvir a minha voz
o teu corpo todo se assanha.

Suspendo a razão quando você está;
nada julgo,
tudo que é alheio a nós eu deixo pra lá...
pra viver a paz de ter assim,
só pra mim,
todinho meu,
o encanto teu.

E é por isso que eu tenho medo
de ter de acordar
com a dureza do mundo a fazer castigo,
que é quando não tenho teu efeito de musa pagã
a guiar meu amanhã;
quando não sinto no meu peito
o teu rosto a repousar,
quando não corre pelo meu corpo
o amor
que o teu coração bombeia
na minha veia
pra minha alma acalentar.



domingo, 9 de dezembro de 2012

Morena

 Para Veroníca...




Vem,
Morena,
Minha vida serenar,
Alivia a ânsia do teu cheiro,
Do gosto do teu beijo,
Do encanto do teu olhar,
Pra que no teu sorriso,
O meu equilíbrio,
Eu possa encontrar.

Vem,
Volta pra São João,
Que longe, não há fim
Pro desespero do meu coração
Que vive, assim,
Garimpando a memória,
Contando as horas
Olvidando a razão.

Vem,
Que em mim te faço um abrigo,
Te dou colo
E no meu abraço
Te enlaço;
E digo que não há o que temer
Ainda temos muito por viver.

Vem,
Volta a cantar
Aperta minha mão
Ouve o coração
Pra sempre
Vou te amar...

Vem,
Traz meu alento,
Pois vou me perder
Fora do espaço e do tempo
Num lugar onde não há perecer,
Simbiose de existir,
Num só ser,
Eu e você.

São João del-Rei, dezembro de 2012.

Suspensão




Goldberg Variations Aria by Johann Sebastian Bach on Grooveshark 
"Sê humilde no ouvir, bondoso no julgar."

Suspender o juízo. É isso que quero hoje. Pelo menos hoje, nem que seja apenas por algumas horas. Quero pegar um filme e assisti-lo por assistir. Nada de julgamentos estéticos, sociais, culturais etc. Fazer do pensamento um hábito. Sim!, há bons hábitos! O pensamento é o vento que varre as formas de areia que o nosso cotidiano congela em preconceitos. Ainda bem que são de areia... Entretanto certas formas se solidificam de tal modo, que se faz necessário quase um tufão para destruí-las. Aí surge um problema. E os resultados são ruins. O juízo deve ser suspendido, mas o pensamento não, pois é da destruição dos velhos juízos, feita pelo pensamento, que a possibilidade de novos surgirá. A vida e o mundo são tão plurais, tão grandes, tão aparentemente insondáveis, que às vezes a melhor coisa a se fazer é parar um pouco e apreciar... Humildade... Não resignação, mas humildade. (Acho que teria que explicar pra alguns que possam vir a ler isso, este conceito de humildade, mas hoje estou meio letárgico, portanto, vou deixar que o texto cumpra o seu papel de ser aberto às diversas interpretações, embora eu o tenha escrito hoje, sob uma perspectiva muito peculiar). Humildade pra entender que é preciso parar e observar. Parar, destruir e renovar. Humildade para se movimentar; pra encher o peito de coragem e ousar sair do conforto das convicções, do perigo das ideologias, da catástrofe do não-pensamento e do juízo universalizante-atemporal. Tenho lido muita coisa ultimamente, literatura, filosofia, poesia, e em livros, jornais, revistas, blogs etc. E também tenho visto e ouvido muita coisa também. E cada vez mais, eu me convenço de que a gente sabe tão pouco, e chego mesmo a rir de quem sabe muito... Porque o muito, nesse caso – pra pessoas cada vez mais automáticas, atomizadas e massificadas -, é o nada. O muito, nesse sentido, significa ir, na mesma direção, mas em sentido contrário. Lembrei-me de algo lindo que Jesus disse... Mas pera aí, não vou dizer. Hodiernamente – pra usar uma palavra que os acadêmicos adoram – é pecado falar em Jesus, Deus, religião etc. Por que cê escreve Deus com d maiúsculo? Uai, porque aprendi assim. Sinal de respeito. Minha mãe me ensinou. Teve uma época, ainda quase recente – a adolescência, e talvez eu ainda esteja nela, mas em outro sentido – em que tudo ficou errado, ultrapassado. E Eu, mais alguns poucos com os quais eu comungava, sabíamos o segredo da vida e do funcionamento caótico das coisas. É realmente ainda estou imerso nessa fase. O bom – ou talvez não – é que sei que tem tanta gente assim. Somos uma massa de adolescentes rebeldes, tarados, mas sem causa e sem tesão... Suspender o juízo é disso que preciso. Suspender o juízo e reativar o pensamento, a humildade e o espanto diante da vida. Pronto, hoje é domingo, vou lá na casa da minha vó e ela vai ter que fazer biscoito frito pra mim. Tanto tempo que não como isso... Biscoito frito e café na caneca esmaltada, foda-se o calor. Eu quero é rememorar o doce espírito da criança...

Divinópolis, dezembro de 2012