terça-feira, 17 de setembro de 2013

July e Dionísio

Comptine d'un autre été : L'Après-midi by Yann Tiersen on Grooveshark

Juju
É noite. Olho a lua alta e me agarro na fé de que o sol virá trazer o dia. A cama desarrumada ainda guarda as tuas marcas, posso até sentir teu cheiro. O silêncio da tua ausência agora me machuca, me corta a sangue frio. Fumo. E não ouço as tuas censuras. É estranho, mas até a falta delas me dói agora. Passeio pela casa, subo e desço as escadas, vou da sala à cozinha e de lá ao quarto. Tudo vazio. Não há reclamações, protestos ou xingamentos. Tampouco há risos. Entretanto, sinto um alívio trazido de saber você bem. E embora eu sofra, não tenho motivos para maldizer a vida. A dor purifica, traz a remissão das faltas, ensina. Tudo é belo, pois é trágico. É belo porque é lágrima e riso – é movimento. E agora é tudo teu: a montanha, os sinos, os gatos a espreitar o quintal de cima dos telhados numa preguiça boa, os pássaros cantando à inocência, a mangueira florida, os transeuntes incógnitos, os cães, o céu, as nuvens. A vida é boa, a despeito do que dizem os vencidos. Estes só o são por ainda não poder enxergar o quadro todo, pois a beleza de um mosaico só pode ser vista a certa distância, do alto. Aos poucos, vejo mais, sinto mais. Penso em você, e você ainda me dói. Mas lembra: a dor purifica, limpa a alma, esvazia – a árvore se desfolha para fazer brotar de novo a flor. A vida é boa e já até esboço um sorriso. Você está bem. A flor desabrochou.
 
Dio
Nunca te vi triste. Acho que você não conhece a tristeza. Está sempre sorrindo mesmo com as durezas desse mundo ainda tão cruel. Me espanto ao lembrar que foi esse mesmo mundo que te moldou. Pensando bem não foi o mundo, foi a alegria que te fez.  E que olhos você tem! Olhos de candura, de inocência e paz. Sempre tive inveja do teu sono. Como é possível dormir assim tão sereno? São teus olhos que te fazem dormir assim, pois estes olhos só veem a beleza, enxergam apenas o bem. E isso me preocupa, porque estes olhos que só conseguem perceber bondade habitam um mundo ainda cheio de maldade. Se cuida, por favor. Pois você só conhece o amor.

 

Meu São Francisco de Assis,
santo e protetor dos animais,
atende o meu apelo,
cuida com amor, carinho e zelo
de todos os bichos desse mundo,
e dê pra eles muita saúde, guarida e paz.

 

domingo, 15 de setembro de 2013

Minas - inefável

Minas by Milton Nascimento on Grooveshark

Em Minas está minha família:
mãe, pai, avô, avó, três irmãos,
tios, tias, primos, primas e a Luana.

Em Minas deixei riso, choro, futebol;
amores castos e paixões avassaladoras, perversas,
mulheres inesquecíveis, outras amadas às pressas;
amigos de silêncios, outros de conversas,
poucas desavenças e muita saudade,
poucas palavras, muito pensamento, muita liberdade.

Em Minas estão, sobretudo, minhas raízes
encravadas no mais profundo solo mineral;
na terra ferrosa, que faz a gente forte,
na terra do ouro, que faz a gente inoxidável,
na terra dos diamantes, que faz a gente ser inquebrantável.

E se hoje parto, é para que no mundo além das suas montanhas,
eu mais te sinta, e você mais me doa,
num amor purificado pela dor da sua distância
física, a que toda metafísica transcende,
e te faz aqui, neste coração
que um dia há de perecer e que bate doloroso,
sempre presente;
e que te faz aqui, neste espírito grave, taciturno em sua contemplação,
eterna habitação.

Minas, tácita e introspectiva,
das procissões e de tantas dores fúnebres,
de prantos e encantos,
de gente a espiar pelas frestas de portas e janelas;
Minas, artística, musical,
de poetas, quitandeiras, construtores, compositores,
de sinos a anunciar sua potestade;
Minas histórica, forte no presente, sublime em sua tradição,
Minas atemporal
livrai-me de tua ausência, maior mal.

Em Minas estou por inteiro,
pois de Minas levo tudo por onde vou
- tropeiro que sou.

Minas real e irreal,
feérica, onírica, indelével.
 – recanto dos meus planos e sonhos,
dos meus gozos, gemidos e ais.
Minas infinita além das serras,
meu lugar, minha terra,
Minas Gerais.

Em Minas nasci, em Minas espero morrer,
mas em Minas quero mais viver.

Spike

 Tava nublado o dia, me lembro muito bem disso; nublado, meio frio e bastante carregado, tava assim o clima daquela tarde inesquecível para a minha melancólica lembrança. Tinha ido à casa de um colega, pra conversar bobeira, espairecer, tentar esquecer, mas nada adiantava, nada. Meu colega falando sobre suas novas composições, tocando algumas músicas do Nirvana, nessa época ouvia muito Nirvana, mas isso também só fazia lembrar o amigo, o companheiro, o irmão, que a essa hora tinha o fio da vida cortado pela tesoura afiada de Átropos. Acho que já eram umas quatro horas da tarde quando resolvi encarar meu medo e voltar pra casa, voltar pra realidade, saber das novas. Ele tinha ido pro veterinário na tarde passada; tinha piorado muito nos últimos dias. Não queria comer nem beber nada, mas lambeu num esforço dantesco, as lágrimas que escorriam dos meus olhos, minutos antes do último abraço. Nunca esquecerei aquele último olhar, olhar inocente, doce e amedrontado, pedindo para não deixar que o levassem, para estar comigo até o fim, assim como o combinado. Mas eu o entreguei, não sabia o que fazer, ele mal respirava, deixei que o levassem, tentando me enganar esperando a sua volta; foi, mas não voltou.

  Pêlo preto com pontos amarronzados, fofinho, meio liso, meio anelado. Os olhos castanhos  ficam a maior parte do tempo cobertos, mas não escondidos; tem olhar penetrante, cativante. Chegou novinho, veio de Belo Horizonte; vomitou muito na viagem, tadinho, ficava enjoado em viagens. Nosso amor foi à primeira vista, a amizade logo se consolidou; eita cachorro folgado sô, vivia no colo, no meu colo, e foi assim que ele se entregou a mim. Acho que a gente tava vendo Tv, novela mesmo. De repente escorre um liquido quente em cima de mim, “puta que pariu Spike, puta que pariu”; tinha urinado em mim, mas logo compreendi a profundidade por traz daquela “mijada”; era um pacto, uma prova de confiança, ele não faria isso em qualquer um, pode parecer loucura, mas não é, aquilo foi sim uma entrega, naquele momento nós soubemos, é pra sempre. Ele adora ouvir musica, a gente ouvia muito, ele gosta muito de Guns n’ Roses, não gosto de todas deles, mas fazer o que, isso acalma o Spike, acalma não, porque ele é o pai da calma, mas deixa feliz, saltitante, então tenho que ceder um pouco também. Ração ele não é muito chegado não, faz cara feia pra comer, gosta mesmo é de arroz, feijão e sardinha. Mas tem uma ração que ele come, é uma que tem um formato de ossinho, essa ele come, mas às vezes se faz de difícil, aí é só colocar um pouquinho de arroz que o safado come tudinho, até lambe o prato. Adoro fazer ele de bobo; tem vezes que vou sair e ele vem atrás, aí falo com voz grossa: “pó ficar onde cê tá, Spike”, e ele fica paradinho com aquela carinha de dó, carinha capaz de derreter qualquer iceberg, mas me faço de duro, e passo o portão; espero um tempinho, vejo pela gretinha e ele tá lá, paradinho olhando pra frente, esperando o dono maldoso voltar. Aí não agüento mais, bato na perna e ele vem correndo e pula no colo. Jogo do galo é um espetáculo à parte; quando sai gol do glorioso, ele vibra mais que eu; quando o galo toma, eu fico puto, aí ele vem me acalmar, deita na minha perna e pede pra acariciar; quando juiz rouba, é a vez dele ficar puto, cachorro justiceiro, absorvi muito dele esse ideal de justiça; todo jogo do galo é assim, fortes emoções. Desde 2005 ele não vê um jogo, perdeu o rebaixamento pra segunda divisão, isso foi bom ele ter perdido, mas em compensação, não viu o Tardelli sendo artilheiro do Brasileirão. Chega de descanso meu filho, tá na hora de voltar; vem bidinho, precisa ter medo da Luana não, ela é grande mas é mansinha, vem, domingo o galo joga, tenho até bandeira agora, vem, vamo ver o galo ganhar...

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Declaração

São tempos áridos estes, preta. Por isso, peço-te paciência. São tantas as mudanças... E dá vontade de mandar tudo a puta que pariu, dar uma porrada nuns e noutros... Mas eu vou "levando de teimoso e de pirraça" e de vez em quando eu tenho mesmo que recorrer à cachaça... Mas passa, tenho certeza que passa... São tempos frenéticos, escassos, e também por isso eu tenho falado pouco e me virado tanto de lado. Mas eu te peço, aguenta que vai melhorar... Enquanto isso, escuta o grande Vinícius...

"Ah, mundo enganador
Paz não quer mais dizer amor
Ah, não existe coisa mais triste que ter paz
E se arrepender, e se conformar
E se proteger de um amor a mais
O tempo de amor
É tempo de dor
O tempo de paz
Não faz nem desfaz
Ah, que não seja meu
O mundo onde o amor morreu
Ah, não existe coisa mais triste que ter paz
E se arrepender, e se conformar
E se proteger de um amor a mais
E se arrepender, e se conformar
E se proteger de um amor a mais"

(Vinícius de Moraes e Baden Powell)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Impressões de um mineiro matuto sobre Sergipe - A chegada

Eram exatamente 13hs quando desembarquei em Aracaju. Ao descer do avião (descemos na pista) senti um mormaço sufocante. Estava muito quente e julguei que o calor excessivo vinha ou das turbinas e lataria da aeronave ou do asfalto da pista – pouco tempo depois constataria meu engano. Ao entrar na sala de desembarque senti um alívio na temperatura, peguei a mochila e relaxei. E eis que a verdade se e revela: saindo do aeroporto o calor das turbinas e do asfalto se espalhava por todos os lados! Não eram o avião ou o asfalto as causas daquele calor dos infernos, essa quentura toda estava no ar, no chão e em todos os lugares imagináveis! Constaria ainda que durante a noite o calorão continuava... Pensei que não aguentaria, mas aguentei (o ser humano é um bicho muito adaptável- feliz e infelizmente); uma água de coco gelada ameniza tudo... Só a cerveja é que não fica gelada (e isso é muito ruim, mas o lugar te faz passar de boa por cima deste problemaço). E não só aguentei como decidi ficar... Mas isso fica pra depois... Há tanta coisa a se dizer sobre esse lugar, os costumes, as belezas etc.; porém as pessoas são o que mais me chamou a atenção – não poderia deixar de ser assim. Como é que esse povo, e de digo esse povo generalizando mesmo, consegue se manter tão humano? Há um sorriso fácil em cada rosto, conversas surgem inesperadamente em todos os lugares, em filas de banco, na padaria, no quiosque da praia; as pessoas param as outras na rua pra conversar fiado; como é que esse povo pode ser tão dado (pra usar uma expressão nordestina) assim, meu Deus? Para um mineiro, ser que está quase sempre desconfiado e vive escondido atrás das montanhas, isso chega a ser assustador. É claro que fiquei desconfiado dessa gente. Mas confesso que já estou me rendendo... Há tanta alegria nesse lugar, tanto sol (não gosto muito, confesso), tanta luz, tanto mar... Ah, o mar... O mar é algo insondável para os mineiros. O contato com o mar me arrebata, me deixa perplexo e calado diante da sua imensidão misteriosa....

Que lugar é esse, Deus meu? Sergipe que eu não quero mais entender, pois uma coisa já aprendi com o pouco contato que tive e estou tendo com essa gente: às vezes o melhor jeito de se conhecer algo é sentindo...

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Reflexivo (Affonso Romano de Sant' Anna)

"O  que não escrevi, calou-me.
 O que não fiz, partiu-me.
 O que não senti, doeu-se.
 O que não vivi, morreu-se.
 O que adiei, adeu-se."






segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Prece de Mineiro no Rio (C. D. A.)




“Espírito de Minas, me visita,
e sobre a confusão desta cidade,
onde voz e buzina se confundem,
lança teu claro raio ordenador.
Conserva em mim ao menos a metade
do que fui de nascença e a vida esgarça:
não quero ser um móvel num imóvel,
quero firme e discreto o meu amor,
meu gesto seja sempre natural,
mesmo brusco ou pesado, e só me punja
a saudade da pátria imaginária.
Essa mesma, não muito. Balançando
entre o real e o irreal, quero viver
como é de tua essência e nos segredas,
capaz de dedicar-me em corpo e alma,
sem apego servil ainda o mais brando.
Por vezes, emudeces. Não te sinto
a soprar da azulada serrania
onde galopam sombras e memórias
de gente que, de humilde, era orgulhosa
e fazia da crosta mineral
um solo humano em seu despojamento.
Outras vezes te invocam, mas negando-te,
como se colhe e se espezinha a rosa.
os que zombam de ti não te conhecem
a força com que, esquivo, te retrais
e mais límpido quedas, como ausente,
quanto mais te penetra a realidade.
Desprendido de imagens que se rompem
a um capricho dos deuses, tu regressas
ao que, fora do tempo, é tempo infindo,
no secreto semblante da verdade.
Espírito mineiro, circunspecto
talvez, mas encerrando uma partícula
de fogo embriagador, que lavra súbito,
e, se cabe, a ser doidos nos inclinas:
não me fujas no Rio de Janeiro,
como a nuvem se afasta e a ave se alonga,
mas abre um portulano ante meus olhos
que a teu profundo mar conduza, Minas,
Minas além do som. Minas Gerais. ”

C. D. A.

domingo, 7 de julho de 2013

O tempo passa ? Não passa (Carlos Drummond de Andrade)

Shinny Happy People by R.E.M. on Grooveshark

Para Verônica. Feliz Aniversário, preta!
 
 
 
O tempo passa ? Não passa
 
O tempo passa ? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.
 
O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.
 
Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.
 
O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.
 
São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer a toda hora.
 
E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.
 

 

 
 

domingo, 26 de maio de 2013

De alguns absurdos da moral judaico-cristã, da intolerância, da ideia de família, da estupidez humana e do amor de Deus

Por que falar de algo que as pessoas razoáveis já estão cansadas de saber? Porque elas são poucas, são raras, quase sobrenaturais...

 
Confesso que nunca entendi como algumas pessoas conseguem desejar com tanto vigor uma igualdade entre os seres humanos, seres por natureza tão diferentes... É claro que, para os razoáveis, eu não precisaria dizer que não me refiro aqui a igualdade de direitos e deveres e de humanidade, que são tão óbvias que nem mereceriam ser citadas... Mas como sabemos, os razoáveis são poucos, então melhor prevenir, né? Fica dito... 
A igualdade abominável e funesta é aquela tantas vezes ambicionada pelas religiões e sistemas despóticos e totalitários. A igualdade de gostos, crenças, valores etc...
 
 
Dentre as muitas insanidades desses nossos tempos, uma em especial vem me causando náuseas: a intolerância e a imoralidade da moralidade judaico-cristã. De Deus muito pouco se sabe. Entretanto, somos forçados, diante de um pequeno esforço de reflexão, a aceitar que, se existe um ser supremo, criador de todas as coisas, pai ou mãe (e aqui não existe gênero) de todos os seres, este ser deve se fazer sentir ou entender por uma única palavra: amor. Isto posto, é absurdo pensar que este mesmo Deus poderia ser vingador, poderia eleger alguns em detrimento de outros, como muitas pessoas tentaram e ainda tentam nos fazer crer. Estupidez! Santa estupidez humana! Como aceitar que Deus tenha amaldiçoado algo? Como? Isto fere a inteligência humana, um dos mais divinos de nossos atributos. Crer num Deus raivoso, vingativo, que seleciona seus eleitos segundo caprichos aleatórios e tão vulgares, é um disparate tão grande que chega a embrulhar o estômago. Se assim O fosse, não haveria esperança para o mundo... E muitos dizem que não há mesmo. Todavia, se há ou não, este já é outro problema, e deixemos a metafísica para reflexões mais elevadas. Aqui, embora tratando-se de Deus, a conversa é bem mais embaixo, no lamaçal; bem mais humana ou quem sabe pré-humana. Que dizer dos que pregam o amor de Deus, mas abominam o amor humano? Que dizer dos que defendem a ideia de família, mas que a destroem na prática. Pessoas de mesmo sexo não podem se amar? Não podem formar uma família? Façam um exercício, reparem as famílias nos parques, praias, praças, shoppings e afins. Reparem se puderem... Reparem se conseguirem achar alguma. Mas olhem além das aparências... Vejam as mães que levam os filhos para passear e que, no entanto, levam também uma babá para segurá-los enquanto mexem no smart phone, no computador, enquanto pensam no trabalho, na academia, e que não enxergam o gol que o filho acaba de fazer no futebol com os amiguinhos, no novo movimento que ele aprendeu, em como ele cresceu... Observem  os pais, a maioria ainda tão machista; e não por natureza, mas por comodismo, conveniência, por imbecilidade masculina... Reparem nos pais que não conseguem abraçar seus filhos, que agridem-nos e também agridem suas mulheres... Reparem os pais que se limitam a não deixar faltar nada. Que pensam que o tudo vem apenas com dinheiro, e nem imaginam que a atenção e carinho é que são fundamentais para os filhos. É essa a família que queremos? É por essa família que estamos lutando? Se assim o for, é melhor que a família desapareça deste mundo; é melhor que façamos como Platão propôs em sua República... Entretanto, e felizmente, família ultrapassa e muito esse discurso raso e mascarado que os conservadores cristãos tem falado tanto. Família é a união, e não apenas consanguínea, de pessoas por meio do afeto e amor verdadeiro e mútuo. Não importando a configuração que essa família venha a ter. Tudo muda, tudo está em movimento, tudo é devir... Portanto está na hora de mudarmos também, de ultrapassarmos as babaquices que nos vem sendo transmitidas há tanto tempo. Ah, a religião... As ideologias nefastas que tentam se impor por meio do medo de um poder absoluto. Pastores e líderes religiosos em geral, reflitam sobre suas ações. Os senhores e as senhoras que conseguem falar para tantas pessoas e que são muitas vezes referências para estes coitados, reflitam! Vocês que formam tantas opiniões, reflitam se estão mesmo promovendo a tão falada fraternidade cristã! Cristo algum dia repudiou alguém? Condenou alguém? Pediu algo além do amar toda pessoa como a um irmão?  
 
 
E a verdade vos libertará... E a verdade é que o amor não tem gênero, que família existe onde as pessoas se amam... A verdade é que Deus não escolhe alguns, mas todos; e todos os males e desgraças do mundo são, em sua grande maioria, causados por nossas imbecilidade, intolerância e falta de reflexão. Então lutemos contra esses males! Lutemos contra nossa ignorância! Oremos a Deus e peçamos discernimento, sabedoria e mais amor. Busquemos não os dogmas religiosos, mas as lindas obras do pensamento humano que, senão trazem a verdade, destroem as mentiras que se querem verdades. Esperemos um pouco mais para ler a bíblia; estudemos mais antes de tentar ler uma das mais controversas, alegóricas e alteradas obras da humanidade. Estudemos mais antes disso; filosofia, história, lógica, sociologia, literatura... Tomemos o exemplo de Jesus como guia; exemplo de paciência não conformista, de inteligência e de tolerância. Os ritos, embora eu os ache em sua grande maioria absurdos, apresentam sua validade para a massa que necessita de algo que facilite a conexão com Deus e consigo mesma; e desde que também sejam filtrados. Quanto aos dogmas, descartemos todos! Mas de forma paulatina, pois os olhos que há tanto estão na escuridão, precisarão de tempo pra se adaptarem a luz... Todavia, não adiemos mais a busca pela luz...
 
Que Deus nos ilumine...
 
 

domingo, 31 de março de 2013

Do que foi



Entra, toma um café.
Desculpa o mau jeito,
É que eu quase perdi a fé.
E se eu estou todo respeito,
É porque já não sei mais quem és.

Nos novos limites, confuso e perdido,
Movo-me sem orientação,
É que está batendo surpreso, o coração que quedou partido,
Quando você saiu sem dizer motivo nem razão.

Você decidiu e se foi de um jeito tácito
Eu, do meu lado, evitei procurar,
Obedeci, cego e calado, pra te respeitar.
Entreguei-me à melancolia
Fechei-me em misantropia,
Chorei, forçado a quebrar o hábito
De ter você ao lado,
De ter que de novo começar.

Deixa eu te olhar um pouco,
Que raiva eu já não tenho,
Porque que a raiva é só um engenho,
De amar de um jeito torto,
De insistir na esperança hostil,
De ter de volta o que foi, sonho pueril.

E pra mim eu já não minto.
Ainda te sinto
Mas já não posso te amar
E como tudo passa você teve de passar.

E não me é mais permitido
Enganar o meu amor,
Que por você esquecido,
Teve que esquecer medo e dor.

E se enfeitou de novo,
Doou-se para outro,
Fugiu da solidão.

E eu confesso a falta que ainda faz te ouvir falar
 E espero que um dia a gente possa conversar,
De um jeito que pra ambos faça bem.

Enquanto isso deixa o tempo passar
Que com o tempo,
 tudo vai e tudo vem.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Sistema



Eu quero saber o que é o sistema,
Já que doutores, o povo e a televisão,
Sempre a culpá-lo do nosso humano dilema,
Também buscam nele a solução.

Eu quero saber como é que se faz,
Se é possível apenas com o parlo,
Sair da cadeira e correr atrás.

Eu quero saber de onde vem
A força opressora do discurso duro,
Que põe o indivíduo em cima muro,
Que o apaga e o submete ao controle do anônimo ninguém.

Eu quero saber se afinal,
Transferindo tudo para uma massa pungente,
É possível ver Maria, Paulo ou Vicente,
Sem considerar tudo igual?

Do caos a calma


As musas são nove. Assim me foi ensinado. Vem e vão, e voltam e passam. Assumem diversos aspectos, sensações: aquele cheiro de dama da noite que me traz a infância e que se afasta no pulsar do tempo... mas que volta no pensamento - quando este está elevado e puro -; gostos, texturas, sons, imagens... Canta-me, ó musa, este tempo agora meu, noutro em que talvez eu já não seja! Há coisas que não deveriam se perder. Invoco não as musas, mas a própria Mnemosine, e a ela entrego agora a guarda deste equilíbrio. São raros tais momentos. Explico-me. Hoje, ou melhor, nesses tempos, fui invadido por uma sensação que, se não cala, também não fala; por um sentimento que me trouxe respostas que, se não definitivas (ainda não é tempo delas), são ao menos fonte de uma calma profunda. Do caos a calma. Hoje um equilíbrio absurdo me invade e me faz ter como única reação possível, o riso que não sai da cara e diz: “a vida tem seu sentido em si mesma, é seu próprio fim; por isso é sublime”. Minhas questões existenciais estão por ora resolvidas. Daí a vontade de gravar este momento pra poder quem sabe rememorá-lo em outro. É que ainda acredito no movimento; no poderoso devir que sempre há de vir. Mas agora, acredito de um modo diferente, de uma maneira organizada e repleta de um sentido tão grande que, embora eu não conheça suas leis, ainda assim posso reconhecê-las! Alguém que venha a ler isso talvez me tome como desordenado e confuso. Não o culpo. Mas é que há coisas inefáveis, e nem toda sorte de metáforas e analogias, e por mais felizes que sejam, podem dizê-las. Mas tento. Meus sentimento e pensamento estão agora em harmonia cá dentro. Poderei ser acusado de romântico, conformista, confuso, imbecil e até mesmo egoísta. Mas não posso deixar de dizer e não digo mais nada depois, porque, quem ler e já tiver sentido alguma vez, ou ainda estiver sentindo, saberá reconhecer, na minha, a sua própria, passada ou não, felicidade: Verônica! 

segunda-feira, 18 de março de 2013

Perspectivas


Desenhos de Verônica Motta

 

 Igreja de Nossa Senhora do Carmo
Sao João del-Rei - Minas Gerais

 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Doxa da separação: Isabel

Mentiras by Adriana Calcanhoto on Grooveshark

Tinha que ser assim. Nem houve muita resistência da parte dele, e confesso que isso aumentou a dor. Aquele desgraçado! E depois de tudo o que fiz por ele. Tanto dei de mim, e o que é que sobrou? De todos os sonhos, dos falados e dos calados, dos realizados e dos procrastinados, restaram apenas a mobília planejada, alguns livros com nossas assinaturas, uns DVDs, as fotos que ainda não deletei...  Ontem encontrei alguns lençóis impregnados com cheiro dele no guarda roupas. E tem algumas calças e umas camisas também. Nem sei por que diabos eu ainda não joguei fora essa tralha toda. Ainda dói, viu! Prazer traz dor, dor prazer traz... Odeio o Goethe. Odeio porque ele gosta tanto... Mas nisso aquele alemão desgramado estava certo... Sou muito imbecil mesmo, viu! Vou ver se levo lá naquela coisa de associação de ajuda cristã ou dou pra algum vizinho. Já deveria ter feito isso. Esses trecos só estão ocupando um espaço que nunca deveriam ter ocupado. Coração? Amor? Amor porra nenhuma!
Já se vão seis meses desde que ele saiu de casa. E eis que é chegado o dia. Acho que preciso de um cigarro. Tem tempo pra caralho que não fumo. Também tem tempo pra caralho que não falo caralho...  Desde a adolescência. E eu adoro essa palavra. Adoro ouvi-la; tem uma sonoridade forte, excitante... A gente é tão bobo na adolescência, né? Vive sonhando com príncipe encantado montando seu cavalo branco, abrindo os braços e dizendo com uma voz grossa e quente: Vem! Ele foi o meu, só que em vez de cavalo ele andava de bike; e não era nobre, mas era o pseudomarginalzinho mais lindo do mundo! A gente costumava subir a serra à noite, eu fugida dos meus pais, pra fumar maconha, ver o céu e transar feito doidos. Bons tempos. Fase estranha a adolescência.. Tanta descoberta, tanto mistério, tanto medo, tanta excitação, tanto sonho... Hoje só tenho realidade, e ela não é nem um pouco ideal. Ah, dei pra ler filosofia, Sartre e Nietzsche. Uns livros que ele se esqueceu de pegar aqui. Estou gostando muito, mas acho que tô ficando triste também. É que é tudo tão ele... É, tenho que separar as coisas, afinal “tudo passa e nada permanece”, ele mesmo vivia dizendo isso. A frase é do Heráclito. É hoje. Já se vão seis meses... Seis meses que não o vejo, e, no entanto, eu ainda o sinto tanto. Cigarro! Preciso de um maço. É só assinar e tudo vai ficar bem. E não fui eu quem tanto quis esse divórcio? Ele aceitou bem. Chorou, pediu pra ficar, jurou que estava arrependido, pediu pra eu lembrar de coisas tão profundas - e por isso tão doloridas naquele momento. Eu só pude estapeá-lo. Como é que você ousa falar dessas coisas seu filho da puta?  Voltando, agora é só assinar. Hoje em dia, percebo que a única coisa que mantém sólido aquilo que é dito por nós, seres humanos tão voláteis, é o direito, são as leis. Ele dizia tanto isso. E eu achava um porre essas teorias políticas que ele sempre repetia. Entretanto, hoje elas fazem muito sentido. Triste, porém realidade. Já não se pode mesmo confiar na palavra do ser humano. Até os sentimentos estão sob o jugo das leis, foram legislados. De passionais a agentes passivos. Quê? Nem eu sei. O amor? O amor se declara na voz, se firma numa assinatura e, em outra, se desfaz. Mas parece mesmo um contrato, e com prazo e tudo. O problema foi que o meu, quem leu e assinou, foi o coração. Brega, né? Mas é a verdade. O dele não, ele deve tê-lo pensado com a cabeça do pau. O dele foi tão passageiro quanto aqueles êxtases que ele tem com o time dele. Merda viu! Também odeio futebol. E eu vi tantos jogos ao lado dele; e era tão bom... Pronto. Os dois assinaram. Estamos oficialmente divorciados. E separados? Bem, isso talvez infelizmente nunca... Talvez não em mim... Se eu ainda o amo? Ele me traiu, oras! E traiu com aquela pirralha! Aquela puta! Eu também fiz tanto por ela... Traiu-me com minha própria aluna! Eu quero é que eles vão para o inferno! Que peguem uma doença mortal, mas que ela demore a matar! Eu te amo tanto, seu desgraçado! Você não vê que eu voltaria?! Que eu tinha que negar primeiro? Mas você já não quer... 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Mulher


Por Verônica Motta

Cansei. A vida é tão complexa. Entendo a beleza do mundo feminino. Ser mãe, dona de casa, esposa, amiga, companheira, filha... Sim, tarefas e status que “nunca” passarão. Como é bom ser mulher... Será? Meu mundo não é perfeito! Como eu queria ter o mundo perfeito dos filmes americanos... Ou então, dos filmes italianos: sim! Uma excelente cozinheira, respeitada por todos, la mamma! Dona de casa, com um marido fiel, que faz juras de amor todos os dias... Que sonho! Como eu queria ter isto... Mas não; hoje eu tenho que estudar, ter um espírito competitivo, provar que sou duas vezes melhor que os homens pra poder ter um salário parecido com “os deles”. Ir ao salão, ficar impecável! Sim... cozinhar, ser econômica, mas andar na moda; ser “inteligente” e “obediente” e, ao mesmo tempo independente; não poder marcar duro para não ser ciumenta, mas ainda assim, tenho que dar atenção para demonstrar que trato bem. Sim, sim, sim! E ainda tenho que gerenciar casa, filho, levar o carro para a revisão, supermercado, a senha da internet, pagar as contas!! Fazer mestrado, provar novamente que sou capaz! Chegaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!! Eu não aguento mais!
Sim, eu quero ser sustentada pelo meu marido; quando ele chegar quero poder correr em sua direção, dar-lhe um beijo e guardar sua roupa, preparar o café e perguntar como foi seu dia. Escutar. Mostrar as contas que chegaram. Colocar os filhos na cama. Dormir com meu marido. Acordar cedo, preparar o café, aprontar as crianças e deixar na escola. Ver o marido ir trabalhar, lavar a louça e descansar.  Mais tarde, preparar o almoço, pegar as crianças. Servir o almoço e despedir-me do meu marido. Brigar com as crianças e fazer faxina, mais tarde, perguntar à vizinha a receita de bolo... e quem sabe provar um pedacinho com ela. Ler revistas da moda, depois ir correndo pra casa, preparar o jantar para meu esposo, dar banho nas crianças e estar mais uma vez à espera na porta... pelo meu amor!!
Meu Deus! O que há de errado  nisto?! Sim ... eu queria ter isto...
Mas ao contrario disto, eu tenho que acordar às 05:50, ir para academia, chegar as 06:50, fazer café, tomar banho, ir para o serviço às 07:30 e chegar somente às 08:00. Ouvir o cliente reclamando. Fazer a audiência das 10:00 à 12:40 porque o juiz chegou atrasado. Sair correndo porque às 13:30 tenho que estar no outro emprego. Esperar chegar as 16 horas para lanchar. Trabalhar até as 18:30,  ir para casa. Tomar banho, trocar de roupa, pegar o material, ir dar aula na universidade. Chegar em casa as 23 horas, tomar banho, olhar as contas que tenho que pagar na internet, rezar para que tenha um feriado. Terminar de ler os livros da tese do mestrado. Sexta feira ir para o MBA de finanças corporativas, dar atenção às amigas, fazer as unhas, os cabelos, fazer faxina, levar as sobrinhas no cinema; o gás e agua mineral acabaram! Ir ao oftalmologista, lembrar de trocar o óleo do carro... E troca-se o óleo do carro? Sim! Calibrar os pneus! Ir no gerente porque o cartão esta bloqueado. Pagar o cartão do dia 03, o outro vence dia 16. Sim... e a sociedade ainda quer que case, tenha filhos e seja a esposa perfeita!!!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?”

Sim, o dia tem 24 horas. A semana 07 dias. O mês 30 dias, o ano 365 dias... e ainda assim,  querem que eu seja tudo em apenas 19 horas diárias!!!!!!
Chegaaaaaaaaaaaaa!!!!!

“Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das Ciências!)
Das ciências, das artes, da civilização moderna!...

Vão para o diabo sem mim”...


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A chuva passa


A chuva passa...
Não é somente pela chuva que me tranco no quarto,
nem estou simplesmente nele confinado. 
A mim mesmo  me volto pra (tentar) entender as coisas.
Tanta coisa muda... 
Daqui da sacada vejo a chuva lavar o chão;
mas água que cai agora, já passou por aqui antes.
Contudo, já não é a mesma.
Eu já não sou o mesmo...
Tudo muda e tudo acaba, mas nada é melhor
do que a ilusão de que possível permanecer,
de que as pessoas que gostamos estarão sempre por aí,
de que a ida ao mercado será sempre boa,
de que no outro dia serei melhor que hoje,
e que amanhã não estarei resfriado...
Como é bom!
Contudo, é ilusão...
Pois a vida nos lançou no mundo,
deixando como opção única
a marcha junto à consciência inconsciente do devir.
E é isso que sufoca,
que nos coloca frente a frente com 
a rígida lei imperscrutável,
embora apreciável.
Até a chuva passa...
E espero ela passar pra poder voltar ao aconchego (da ilusão)
Quando ela passar sairei pra comprar pão...
Mas talvez todo ser já traga em si algo eterno
E a existência seja a possibilidade infinita da afirmação do novo,
[da renovação, do movimento.
E pode ser que a beleza, a verdadeira paz
venha com a harmonia máxima,
que é saber que tudo passa...
Que, imutável e permanente,
é apenas o cósmico movimento onipresente.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A Augusto dos Anjos

Sofreste com a angústia da busca errante,
com os mistérios de fora do tempo,
com as luzes que, de tão claras 
e de tão distantes,
fogem ao entendimento.
A vida é dor, disseste;
e da dor tu soubeste como ninguém,
destilar a pureza absurda.
Ah, poeta inquieto!
Ah, agoniado pensador!
O Deus-verme roeu-te as entranhas,
as carnes,
a melancolia dos olhos
e o sorriso custoso e desacreditado.
Mas também roeu-te as tristezas,
as dores
e o desassossego.
Portanto, aquieta-te, oh poeta do desespero!
Afasta-te da angústia,
mas nunca interrompas a busca...
Olha que já te é possível buscar
sem ter o sofrimento a fazer-te companhia...
Descanse, poeta!
Entretanto, sobre o límpido e radiante sol da Paraíba,
Siga nos encantando e inspirando...
Oh, poeta inquiridor! Acalme a alma sôfrega!
Agora, que te é apaziguada e serena
a vida fora do caos material,
teu espírito augusto, altivo e taciturno,
já tem consciência de que és!
E assim, um tanto mais sabedouro
das leis ainda desconhecidas
pelas rastejantes mentes materiais (mortais),
reconheces, mais  uma vez,
e de modo lógico, emotivo e natural,
"o império da substância universal".
Pois alcançastes o apogeu...
e no infinito fúlgido dos anjos,
estás,
enfim,
com os teus...