sábado, 16 de fevereiro de 2013

Mulher


Por Verônica Motta

Cansei. A vida é tão complexa. Entendo a beleza do mundo feminino. Ser mãe, dona de casa, esposa, amiga, companheira, filha... Sim, tarefas e status que “nunca” passarão. Como é bom ser mulher... Será? Meu mundo não é perfeito! Como eu queria ter o mundo perfeito dos filmes americanos... Ou então, dos filmes italianos: sim! Uma excelente cozinheira, respeitada por todos, la mamma! Dona de casa, com um marido fiel, que faz juras de amor todos os dias... Que sonho! Como eu queria ter isto... Mas não; hoje eu tenho que estudar, ter um espírito competitivo, provar que sou duas vezes melhor que os homens pra poder ter um salário parecido com “os deles”. Ir ao salão, ficar impecável! Sim... cozinhar, ser econômica, mas andar na moda; ser “inteligente” e “obediente” e, ao mesmo tempo independente; não poder marcar duro para não ser ciumenta, mas ainda assim, tenho que dar atenção para demonstrar que trato bem. Sim, sim, sim! E ainda tenho que gerenciar casa, filho, levar o carro para a revisão, supermercado, a senha da internet, pagar as contas!! Fazer mestrado, provar novamente que sou capaz! Chegaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!! Eu não aguento mais!
Sim, eu quero ser sustentada pelo meu marido; quando ele chegar quero poder correr em sua direção, dar-lhe um beijo e guardar sua roupa, preparar o café e perguntar como foi seu dia. Escutar. Mostrar as contas que chegaram. Colocar os filhos na cama. Dormir com meu marido. Acordar cedo, preparar o café, aprontar as crianças e deixar na escola. Ver o marido ir trabalhar, lavar a louça e descansar.  Mais tarde, preparar o almoço, pegar as crianças. Servir o almoço e despedir-me do meu marido. Brigar com as crianças e fazer faxina, mais tarde, perguntar à vizinha a receita de bolo... e quem sabe provar um pedacinho com ela. Ler revistas da moda, depois ir correndo pra casa, preparar o jantar para meu esposo, dar banho nas crianças e estar mais uma vez à espera na porta... pelo meu amor!!
Meu Deus! O que há de errado  nisto?! Sim ... eu queria ter isto...
Mas ao contrario disto, eu tenho que acordar às 05:50, ir para academia, chegar as 06:50, fazer café, tomar banho, ir para o serviço às 07:30 e chegar somente às 08:00. Ouvir o cliente reclamando. Fazer a audiência das 10:00 à 12:40 porque o juiz chegou atrasado. Sair correndo porque às 13:30 tenho que estar no outro emprego. Esperar chegar as 16 horas para lanchar. Trabalhar até as 18:30,  ir para casa. Tomar banho, trocar de roupa, pegar o material, ir dar aula na universidade. Chegar em casa as 23 horas, tomar banho, olhar as contas que tenho que pagar na internet, rezar para que tenha um feriado. Terminar de ler os livros da tese do mestrado. Sexta feira ir para o MBA de finanças corporativas, dar atenção às amigas, fazer as unhas, os cabelos, fazer faxina, levar as sobrinhas no cinema; o gás e agua mineral acabaram! Ir ao oftalmologista, lembrar de trocar o óleo do carro... E troca-se o óleo do carro? Sim! Calibrar os pneus! Ir no gerente porque o cartão esta bloqueado. Pagar o cartão do dia 03, o outro vence dia 16. Sim... e a sociedade ainda quer que case, tenha filhos e seja a esposa perfeita!!!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?”

Sim, o dia tem 24 horas. A semana 07 dias. O mês 30 dias, o ano 365 dias... e ainda assim,  querem que eu seja tudo em apenas 19 horas diárias!!!!!!
Chegaaaaaaaaaaaaa!!!!!

“Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das Ciências!)
Das ciências, das artes, da civilização moderna!...

Vão para o diabo sem mim”...


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A chuva passa


A chuva passa...
Não é somente pela chuva que me tranco no quarto,
nem estou simplesmente nele confinado. 
A mim mesmo  me volto pra (tentar) entender as coisas.
Tanta coisa muda... 
Daqui da sacada vejo a chuva lavar o chão;
mas água que cai agora, já passou por aqui antes.
Contudo, já não é a mesma.
Eu já não sou o mesmo...
Tudo muda e tudo acaba, mas nada é melhor
do que a ilusão de que possível permanecer,
de que as pessoas que gostamos estarão sempre por aí,
de que a ida ao mercado será sempre boa,
de que no outro dia serei melhor que hoje,
e que amanhã não estarei resfriado...
Como é bom!
Contudo, é ilusão...
Pois a vida nos lançou no mundo,
deixando como opção única
a marcha junto à consciência inconsciente do devir.
E é isso que sufoca,
que nos coloca frente a frente com 
a rígida lei imperscrutável,
embora apreciável.
Até a chuva passa...
E espero ela passar pra poder voltar ao aconchego (da ilusão)
Quando ela passar sairei pra comprar pão...
Mas talvez todo ser já traga em si algo eterno
E a existência seja a possibilidade infinita da afirmação do novo,
[da renovação, do movimento.
E pode ser que a beleza, a verdadeira paz
venha com a harmonia máxima,
que é saber que tudo passa...
Que, imutável e permanente,
é apenas o cósmico movimento onipresente.