domingo, 31 de março de 2013

Do que foi



Entra, toma um café.
Desculpa o mau jeito,
É que eu quase perdi a fé.
E se eu estou todo respeito,
É porque já não sei mais quem és.

Nos novos limites, confuso e perdido,
Movo-me sem orientação,
É que está batendo surpreso, o coração que quedou partido,
Quando você saiu sem dizer motivo nem razão.

Você decidiu e se foi de um jeito tácito
Eu, do meu lado, evitei procurar,
Obedeci, cego e calado, pra te respeitar.
Entreguei-me à melancolia
Fechei-me em misantropia,
Chorei, forçado a quebrar o hábito
De ter você ao lado,
De ter que de novo começar.

Deixa eu te olhar um pouco,
Que raiva eu já não tenho,
Porque que a raiva é só um engenho,
De amar de um jeito torto,
De insistir na esperança hostil,
De ter de volta o que foi, sonho pueril.

E pra mim eu já não minto.
Ainda te sinto
Mas já não posso te amar
E como tudo passa você teve de passar.

E não me é mais permitido
Enganar o meu amor,
Que por você esquecido,
Teve que esquecer medo e dor.

E se enfeitou de novo,
Doou-se para outro,
Fugiu da solidão.

E eu confesso a falta que ainda faz te ouvir falar
 E espero que um dia a gente possa conversar,
De um jeito que pra ambos faça bem.

Enquanto isso deixa o tempo passar
Que com o tempo,
 tudo vai e tudo vem.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Sistema



Eu quero saber o que é o sistema,
Já que doutores, o povo e a televisão,
Sempre a culpá-lo do nosso humano dilema,
Também buscam nele a solução.

Eu quero saber como é que se faz,
Se é possível apenas com o parlo,
Sair da cadeira e correr atrás.

Eu quero saber de onde vem
A força opressora do discurso duro,
Que põe o indivíduo em cima muro,
Que o apaga e o submete ao controle do anônimo ninguém.

Eu quero saber se afinal,
Transferindo tudo para uma massa pungente,
É possível ver Maria, Paulo ou Vicente,
Sem considerar tudo igual?

Do caos a calma


As musas são nove. Assim me foi ensinado. Vem e vão, e voltam e passam. Assumem diversos aspectos, sensações: aquele cheiro de dama da noite que me traz a infância e que se afasta no pulsar do tempo... mas que volta no pensamento - quando este está elevado e puro -; gostos, texturas, sons, imagens... Canta-me, ó musa, este tempo agora meu, noutro em que talvez eu já não seja! Há coisas que não deveriam se perder. Invoco não as musas, mas a própria Mnemosine, e a ela entrego agora a guarda deste equilíbrio. São raros tais momentos. Explico-me. Hoje, ou melhor, nesses tempos, fui invadido por uma sensação que, se não cala, também não fala; por um sentimento que me trouxe respostas que, se não definitivas (ainda não é tempo delas), são ao menos fonte de uma calma profunda. Do caos a calma. Hoje um equilíbrio absurdo me invade e me faz ter como única reação possível, o riso que não sai da cara e diz: “a vida tem seu sentido em si mesma, é seu próprio fim; por isso é sublime”. Minhas questões existenciais estão por ora resolvidas. Daí a vontade de gravar este momento pra poder quem sabe rememorá-lo em outro. É que ainda acredito no movimento; no poderoso devir que sempre há de vir. Mas agora, acredito de um modo diferente, de uma maneira organizada e repleta de um sentido tão grande que, embora eu não conheça suas leis, ainda assim posso reconhecê-las! Alguém que venha a ler isso talvez me tome como desordenado e confuso. Não o culpo. Mas é que há coisas inefáveis, e nem toda sorte de metáforas e analogias, e por mais felizes que sejam, podem dizê-las. Mas tento. Meus sentimento e pensamento estão agora em harmonia cá dentro. Poderei ser acusado de romântico, conformista, confuso, imbecil e até mesmo egoísta. Mas não posso deixar de dizer e não digo mais nada depois, porque, quem ler e já tiver sentido alguma vez, ou ainda estiver sentindo, saberá reconhecer, na minha, a sua própria, passada ou não, felicidade: Verônica! 

segunda-feira, 18 de março de 2013

Perspectivas


Desenhos de Verônica Motta

 

 Igreja de Nossa Senhora do Carmo
Sao João del-Rei - Minas Gerais

 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Doxa da separação: Isabel

Mentiras by Adriana Calcanhoto on Grooveshark

Tinha que ser assim. Nem houve muita resistência da parte dele, e confesso que isso aumentou a dor. Aquele desgraçado! E depois de tudo o que fiz por ele. Tanto dei de mim, e o que é que sobrou? De todos os sonhos, dos falados e dos calados, dos realizados e dos procrastinados, restaram apenas a mobília planejada, alguns livros com nossas assinaturas, uns DVDs, as fotos que ainda não deletei...  Ontem encontrei alguns lençóis impregnados com cheiro dele no guarda roupas. E tem algumas calças e umas camisas também. Nem sei por que diabos eu ainda não joguei fora essa tralha toda. Ainda dói, viu! Prazer traz dor, dor prazer traz... Odeio o Goethe. Odeio porque ele gosta tanto... Mas nisso aquele alemão desgramado estava certo... Sou muito imbecil mesmo, viu! Vou ver se levo lá naquela coisa de associação de ajuda cristã ou dou pra algum vizinho. Já deveria ter feito isso. Esses trecos só estão ocupando um espaço que nunca deveriam ter ocupado. Coração? Amor? Amor porra nenhuma!
Já se vão seis meses desde que ele saiu de casa. E eis que é chegado o dia. Acho que preciso de um cigarro. Tem tempo pra caralho que não fumo. Também tem tempo pra caralho que não falo caralho...  Desde a adolescência. E eu adoro essa palavra. Adoro ouvi-la; tem uma sonoridade forte, excitante... A gente é tão bobo na adolescência, né? Vive sonhando com príncipe encantado montando seu cavalo branco, abrindo os braços e dizendo com uma voz grossa e quente: Vem! Ele foi o meu, só que em vez de cavalo ele andava de bike; e não era nobre, mas era o pseudomarginalzinho mais lindo do mundo! A gente costumava subir a serra à noite, eu fugida dos meus pais, pra fumar maconha, ver o céu e transar feito doidos. Bons tempos. Fase estranha a adolescência.. Tanta descoberta, tanto mistério, tanto medo, tanta excitação, tanto sonho... Hoje só tenho realidade, e ela não é nem um pouco ideal. Ah, dei pra ler filosofia, Sartre e Nietzsche. Uns livros que ele se esqueceu de pegar aqui. Estou gostando muito, mas acho que tô ficando triste também. É que é tudo tão ele... É, tenho que separar as coisas, afinal “tudo passa e nada permanece”, ele mesmo vivia dizendo isso. A frase é do Heráclito. É hoje. Já se vão seis meses... Seis meses que não o vejo, e, no entanto, eu ainda o sinto tanto. Cigarro! Preciso de um maço. É só assinar e tudo vai ficar bem. E não fui eu quem tanto quis esse divórcio? Ele aceitou bem. Chorou, pediu pra ficar, jurou que estava arrependido, pediu pra eu lembrar de coisas tão profundas - e por isso tão doloridas naquele momento. Eu só pude estapeá-lo. Como é que você ousa falar dessas coisas seu filho da puta?  Voltando, agora é só assinar. Hoje em dia, percebo que a única coisa que mantém sólido aquilo que é dito por nós, seres humanos tão voláteis, é o direito, são as leis. Ele dizia tanto isso. E eu achava um porre essas teorias políticas que ele sempre repetia. Entretanto, hoje elas fazem muito sentido. Triste, porém realidade. Já não se pode mesmo confiar na palavra do ser humano. Até os sentimentos estão sob o jugo das leis, foram legislados. De passionais a agentes passivos. Quê? Nem eu sei. O amor? O amor se declara na voz, se firma numa assinatura e, em outra, se desfaz. Mas parece mesmo um contrato, e com prazo e tudo. O problema foi que o meu, quem leu e assinou, foi o coração. Brega, né? Mas é a verdade. O dele não, ele deve tê-lo pensado com a cabeça do pau. O dele foi tão passageiro quanto aqueles êxtases que ele tem com o time dele. Merda viu! Também odeio futebol. E eu vi tantos jogos ao lado dele; e era tão bom... Pronto. Os dois assinaram. Estamos oficialmente divorciados. E separados? Bem, isso talvez infelizmente nunca... Talvez não em mim... Se eu ainda o amo? Ele me traiu, oras! E traiu com aquela pirralha! Aquela puta! Eu também fiz tanto por ela... Traiu-me com minha própria aluna! Eu quero é que eles vão para o inferno! Que peguem uma doença mortal, mas que ela demore a matar! Eu te amo tanto, seu desgraçado! Você não vê que eu voltaria?! Que eu tinha que negar primeiro? Mas você já não quer...