quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Impressões de um mineiro matuto sobre Sergipe - A chegada

Eram exatamente 13hs quando desembarquei em Aracaju. Ao descer do avião (descemos na pista) senti um mormaço sufocante. Estava muito quente e julguei que o calor excessivo vinha ou das turbinas e lataria da aeronave ou do asfalto da pista – pouco tempo depois constataria meu engano. Ao entrar na sala de desembarque senti um alívio na temperatura, peguei a mochila e relaxei. E eis que a verdade se e revela: saindo do aeroporto o calor das turbinas e do asfalto se espalhava por todos os lados! Não eram o avião ou o asfalto as causas daquele calor dos infernos, essa quentura toda estava no ar, no chão e em todos os lugares imagináveis! Constaria ainda que durante a noite o calorão continuava... Pensei que não aguentaria, mas aguentei (o ser humano é um bicho muito adaptável- feliz e infelizmente); uma água de coco gelada ameniza tudo... Só a cerveja é que não fica gelada (e isso é muito ruim, mas o lugar te faz passar de boa por cima deste problemaço). E não só aguentei como decidi ficar... Mas isso fica pra depois... Há tanta coisa a se dizer sobre esse lugar, os costumes, as belezas etc.; porém as pessoas são o que mais me chamou a atenção – não poderia deixar de ser assim. Como é que esse povo, e de digo esse povo generalizando mesmo, consegue se manter tão humano? Há um sorriso fácil em cada rosto, conversas surgem inesperadamente em todos os lugares, em filas de banco, na padaria, no quiosque da praia; as pessoas param as outras na rua pra conversar fiado; como é que esse povo pode ser tão dado (pra usar uma expressão nordestina) assim, meu Deus? Para um mineiro, ser que está quase sempre desconfiado e vive escondido atrás das montanhas, isso chega a ser assustador. É claro que fiquei desconfiado dessa gente. Mas confesso que já estou me rendendo... Há tanta alegria nesse lugar, tanto sol (não gosto muito, confesso), tanta luz, tanto mar... Ah, o mar... O mar é algo insondável para os mineiros. O contato com o mar me arrebata, me deixa perplexo e calado diante da sua imensidão misteriosa....

Que lugar é esse, Deus meu? Sergipe que eu não quero mais entender, pois uma coisa já aprendi com o pouco contato que tive e estou tendo com essa gente: às vezes o melhor jeito de se conhecer algo é sentindo...

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Reflexivo (Affonso Romano de Sant' Anna)

"O  que não escrevi, calou-me.
 O que não fiz, partiu-me.
 O que não senti, doeu-se.
 O que não vivi, morreu-se.
 O que adiei, adeu-se."






segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Prece de Mineiro no Rio (C. D. A.)




“Espírito de Minas, me visita,
e sobre a confusão desta cidade,
onde voz e buzina se confundem,
lança teu claro raio ordenador.
Conserva em mim ao menos a metade
do que fui de nascença e a vida esgarça:
não quero ser um móvel num imóvel,
quero firme e discreto o meu amor,
meu gesto seja sempre natural,
mesmo brusco ou pesado, e só me punja
a saudade da pátria imaginária.
Essa mesma, não muito. Balançando
entre o real e o irreal, quero viver
como é de tua essência e nos segredas,
capaz de dedicar-me em corpo e alma,
sem apego servil ainda o mais brando.
Por vezes, emudeces. Não te sinto
a soprar da azulada serrania
onde galopam sombras e memórias
de gente que, de humilde, era orgulhosa
e fazia da crosta mineral
um solo humano em seu despojamento.
Outras vezes te invocam, mas negando-te,
como se colhe e se espezinha a rosa.
os que zombam de ti não te conhecem
a força com que, esquivo, te retrais
e mais límpido quedas, como ausente,
quanto mais te penetra a realidade.
Desprendido de imagens que se rompem
a um capricho dos deuses, tu regressas
ao que, fora do tempo, é tempo infindo,
no secreto semblante da verdade.
Espírito mineiro, circunspecto
talvez, mas encerrando uma partícula
de fogo embriagador, que lavra súbito,
e, se cabe, a ser doidos nos inclinas:
não me fujas no Rio de Janeiro,
como a nuvem se afasta e a ave se alonga,
mas abre um portulano ante meus olhos
que a teu profundo mar conduza, Minas,
Minas além do som. Minas Gerais. ”

C. D. A.