domingo, 15 de setembro de 2013

Spike

 Tava nublado o dia, me lembro muito bem disso; nublado, meio frio e bastante carregado, tava assim o clima daquela tarde inesquecível para a minha melancólica lembrança. Tinha ido à casa de um colega, pra conversar bobeira, espairecer, tentar esquecer, mas nada adiantava, nada. Meu colega falando sobre suas novas composições, tocando algumas músicas do Nirvana, nessa época ouvia muito Nirvana, mas isso também só fazia lembrar o amigo, o companheiro, o irmão, que a essa hora tinha o fio da vida cortado pela tesoura afiada de Átropos. Acho que já eram umas quatro horas da tarde quando resolvi encarar meu medo e voltar pra casa, voltar pra realidade, saber das novas. Ele tinha ido pro veterinário na tarde passada; tinha piorado muito nos últimos dias. Não queria comer nem beber nada, mas lambeu num esforço dantesco, as lágrimas que escorriam dos meus olhos, minutos antes do último abraço. Nunca esquecerei aquele último olhar, olhar inocente, doce e amedrontado, pedindo para não deixar que o levassem, para estar comigo até o fim, assim como o combinado. Mas eu o entreguei, não sabia o que fazer, ele mal respirava, deixei que o levassem, tentando me enganar esperando a sua volta; foi, mas não voltou.

  Pêlo preto com pontos amarronzados, fofinho, meio liso, meio anelado. Os olhos castanhos  ficam a maior parte do tempo cobertos, mas não escondidos; tem olhar penetrante, cativante. Chegou novinho, veio de Belo Horizonte; vomitou muito na viagem, tadinho, ficava enjoado em viagens. Nosso amor foi à primeira vista, a amizade logo se consolidou; eita cachorro folgado sô, vivia no colo, no meu colo, e foi assim que ele se entregou a mim. Acho que a gente tava vendo Tv, novela mesmo. De repente escorre um liquido quente em cima de mim, “puta que pariu Spike, puta que pariu”; tinha urinado em mim, mas logo compreendi a profundidade por traz daquela “mijada”; era um pacto, uma prova de confiança, ele não faria isso em qualquer um, pode parecer loucura, mas não é, aquilo foi sim uma entrega, naquele momento nós soubemos, é pra sempre. Ele adora ouvir musica, a gente ouvia muito, ele gosta muito de Guns n’ Roses, não gosto de todas deles, mas fazer o que, isso acalma o Spike, acalma não, porque ele é o pai da calma, mas deixa feliz, saltitante, então tenho que ceder um pouco também. Ração ele não é muito chegado não, faz cara feia pra comer, gosta mesmo é de arroz, feijão e sardinha. Mas tem uma ração que ele come, é uma que tem um formato de ossinho, essa ele come, mas às vezes se faz de difícil, aí é só colocar um pouquinho de arroz que o safado come tudinho, até lambe o prato. Adoro fazer ele de bobo; tem vezes que vou sair e ele vem atrás, aí falo com voz grossa: “pó ficar onde cê tá, Spike”, e ele fica paradinho com aquela carinha de dó, carinha capaz de derreter qualquer iceberg, mas me faço de duro, e passo o portão; espero um tempinho, vejo pela gretinha e ele tá lá, paradinho olhando pra frente, esperando o dono maldoso voltar. Aí não agüento mais, bato na perna e ele vem correndo e pula no colo. Jogo do galo é um espetáculo à parte; quando sai gol do glorioso, ele vibra mais que eu; quando o galo toma, eu fico puto, aí ele vem me acalmar, deita na minha perna e pede pra acariciar; quando juiz rouba, é a vez dele ficar puto, cachorro justiceiro, absorvi muito dele esse ideal de justiça; todo jogo do galo é assim, fortes emoções. Desde 2005 ele não vê um jogo, perdeu o rebaixamento pra segunda divisão, isso foi bom ele ter perdido, mas em compensação, não viu o Tardelli sendo artilheiro do Brasileirão. Chega de descanso meu filho, tá na hora de voltar; vem bidinho, precisa ter medo da Luana não, ela é grande mas é mansinha, vem, domingo o galo joga, tenho até bandeira agora, vem, vamo ver o galo ganhar...

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